22 de setembro de 2008

Vanessa-Mae plays Classical Gas Raggae

Mas porque não quero que digas que sou antiquado aprecia este até ao fim

Vanessa Mae : Fantasy on a theme from Caravans

Meu neto, ainda não regressei. Entretanto delicia esta música com uma violinista de que o avô gosta muito. Embora actualmente actue com violino electrónico, começou os seu grandes espectáculos com violino clássico.

8 de agosto de 2008

REGRESSEI....

Já alguns dias que aqui não vinha, não por falta de vontade mas, Guilherme nem sempre as coisas correm como nós desejamos e por exemplo já estou à muitos dias sem te ver e isso está a aborrecer-me, mas adiante. Tenho agora oportunidade de te mostrar individualmente alguns dos brinquedos com que brinquei.


Há um que me era muito aborrecido; o do cavalinho com a carroça, porque o cavalo estava sempre a dar cambalhota ao mínimo obstáculo mesmo muito pequenininho. O rakrakrak, a avó Amélia só me deixava brincar com isto no quintal porque não suportava o barulho, e também punha reticencias com o passarinho, aqui era taktaktak.





Este reboque (com guindaste) era um dos meus predilectos, porque me permitia recriar situações de rebocagem de pequenos carrinhos e barquinhos. E também umas caixinhas muito especiais de cortiça, que nunca mais voltei a ver e tu também não irás ver proválvelmente. Estas pequeninas caixas em cortiça, continham as ampolas das injecções. Então o avô com fio de embrulho (agora é fita-cola ou fita-decorativa) amarrava a caixa como se fosse um pequeno embrulho e pendurava no guindaste e levava a "mercadoria" para a outra ponta da casa, o que dava um grande trabalho, com paragens... por diversos sítios.


Esta motinha com atrelado também gostava de brincar porque deslizavam muito bem quando tinham alguma coisa dentro. As rodas e os eixos eram metálicos e por isso andava bem.
Em conjunto com estes brinquedos havia os pequeninos barquinhos feitos com casca de árvore, que eram moldados raspando na pedra dos passeios e que o avô já te ensinou a fazer, quando fomos no comboio azul e atravessamos a ponte 25 Abril sobre o rio Tejo. Lembraste ?

Fiz dezenas deles e brincava no tanque de lavar roupa, ou nos dias mais frios a minha avó deixava-me brincar na cozinha, numa bacia grande com alguma água.Quando mais rapazote e já sabia ter cuidado com facas ou canivetes (navalhas) fazia barcos com as bases das folhas das Palmeiras, que caíam durante o inverno e dava-me tempo para fazer os barcos aos bocadinhos, até chegar os dias bons da Primavera para ir brincar com eles para as Linguetas do cais. As bases das folhas tem a forma básica de um casco de barco, e isso facilitava muito a feitura, mas era trabalhoso... ainda fiz uma meia dúzia deles na minha vida.

Netinho que tenhas usufruído muito no teu mundo do brincar.

29 de julho de 2008

MÚSICAS - DANÇAS - INICIAÇÕES II/II

Gostaste de ver e ouvir este tango?, será algo estranho para ti concordo, porém independentemente de gostares ou não, tens de reconhecer o valor da execução da música sem qualquer electrónica a coreografia simples, com arte e não o simples abanar de corpos.
Está bem queres o resto da história.
Estávamos em Maio de um ano, algures por 65/66, tinham começado aquelas tardes de quase verão. É nesta altura que que se vai passear pela avenida, os rapazitos da minha idade começam a procurar as companhias femininas para o verão que se aproxima, e mais imediatamente para os bailaricos do São João.
Ora o teu avô num grupinho maluco de rapazes, lá conseguiu juntar-se a outro grupinho de miúdas com quem passávamos os restos das tardes na avenida até ao Castelo do Queijo, sentando-nos nos bancos do jardim, num misto de brincadeira infantil e o querermos parecer já crescidinhos. Deste grupo os nomes que me recordo são a Joaquina, a Zé, a Anabela e a Adélia.
Não não era a Avó Adélia, embora no próximo Post eu te vá falar sobre esta Adélia e talvês fiques com uma opinião parecida com a minha de que nada acontece na vida fora do "Puzzle".
Estava em casa numa tarde de sol (já não morava no Passeio Alegre tinha mudado para aRua Bela que tu ainda conheceste) bateram à porta a avó Amélia foi à janela e chamou-me dirijindo-se ao meu quarto e diz-me serenamente que estava uma rapariga à porta para falar comigo.
Guilherme se eu tivesse um buraco à minha frente tinha desaparecido.
Era a primeira vez que uma rapariga me tinha ido procurar a casa, nunca tal me tinha acontecido fiquei todo envergonhado perante a minha avó e lá fui à porta.
E quem era senão a Adélia em pessoa e sozinha (o que era mais impressionante) a convidar-me para irmos dar uma volta.
Com alguns dedos de conversa à porta a avó não apareceu junto de mim. Ficou dentro de casa.
Guilherme, esta atitude da avó Amélia, foi uma manifestação de confiança e respeito no neto apesar de criança. Por isso eu admirei e gostei tanto da minha avó Amélia; e a tua avó Adélia também se dava muito bem com ela.
Então devo ter ganho algum sangue frio para a ocasião e fui pedir à avó para poder ir dar uma volta, e sabes que me deixou sair, claro depois das recomendações habituais.
Esta amiga Adélia decididamente era a alegria em pessoa. É difícil fazer o retrato para ti, que nasceste à tão pouco tempo. O clic dará mais ou menos isto: uma miudinha com a minha altura, da mesma idade que eu, magrinha, morena, cabelo curto, mini-saia, e meias de rede (que à pouco tempo esteve na moda outra vez). Sempre alegre, desafiadora, não aparentava medo de nada.
Creio que no dia seguinte ou dois, já estava novamente a passear na sua companhia. Lembro-me que conseguia-mos falar sobre coisas diferentes, dos nossos gostos e desagrados. E estranhamente não ia-mos passear para a Avenida, mas sim para aquelas ruas interioriores, largas com árvores de cada lado... as ruas dos Palacetes das "pessoas bem".
Sabes qual era o divertimento dela ??? Esconder-se. Sim esconder-se, tinha um prazer enorme em ver-me andar à procura atrás das grossas árvores ou nas reentrâncias dos portões das casas.
Isto devia-se ao facto que ela sendo do interior da Foz, conhecia melhor os locais dos nossos jogos.
E com estes passeios chegamos à altura do São João. E eu sem saber dançar ou então com vergonha de dançar, como queiras.
Na Foz havia muitos bailaricos, Nevogilde, Túnel do Monte da Luz, Paraíso, Sobreiras, e outros lugares, sendo claro o mais importante o da Cantareira no Passeio Alegre.
Mas a menina à noite só podia ir para o baile de Novogilde, porque era para lá que iam os irmão mais velhos e morava ali perto.
Imagina, primeiro que eu estava a dar as minhas primeiras saídas à noite, segundo que tinha que me deslocar quase para o outro extremo da Foz para ir ter com ela, terceiro porque parecendo que adorava dançar o que é que eu ia lá fazer?.
Mas ao contrário do que pudesse parecer, ainda hoje estou para saber como é que ao som das musicas do Tom Jones, Adamo, Sandi Shaw a menina que cantava descalça, e duma música que eu gostava particularmente "ah ah..?..clawn", fui parar a um recatado canto de uma santíssima Capela a dançar, com a minha amiguinha Adélia, ensinou-me a onde colocar as mãos, o primeiro, segundo passo, frente trás, para o lado e lá fiquei naquele ritmo. Estava a tentar recordar a música mais tocada na aprendizagem. Se me lembrar volto cá e escrevo em negrito ok? Delilah do Tom Jones e também outra da Mary Hopkins.
Embora na altura parecesse, pelo menos para mim, que estávamos escondidos do mundo não estávamos, porque havia pessoas a passarem em direcção do bailarico, mas como de facto deviam ir com mais atenção com o que se iam deparar, não reparavam em nós.
Devo-te dizer que a Capela embora um pouco afastada do largo onde se realizava o baile quase que constituía um limite. A frente dava para o baile, e eu estive nas traseiras no canto da nossa esquerda na fotografia. Bem... Amplia a fotografia para veres melhor....
Talvez à quarta ou quinta música o convite foi outro, não podíamos ficar ali todo o tempo e então tinha que ir lá para o meio com ela, ainda bem que o Tom Jones tinha uma música lenta.. lá consegui controlar a timidez, dancei todo o tempo que lá estive e quando fui embora, já estava desejoso do dia seguinte.Afinal era bom dançar.
Foi assim que aprendi e poucas vezes dancei com mais alguém à excepção da tua Avó Adélia com quem dancei muitas vezes no aconchego da nossa casa.
Claro que na Guiné quando me era veladamente permitido, (porque aquilo que parece uma activa dança local, pode ser por vezes uma cerimónia séria) lá entrava eu no Batuque, mas aí não estava mais que a libertar a pressão daquilo que vivia lá.
Esta amiga enquanto convivi com ela num namoro muito indefinido e rebelde com crises de identidade, foi sempre uma óptima amiga e sua tia que me reservo no seu nome, foi sempre muito nossa amiga compreensiva e excelente educadora para a época.
Sem pretender transformar o blogue em discoteca vou colocar as duas canções próprias para consumo na época.
Meu neto de outra forma dificilmente saberás que esta concepção de música existiu.

25 de julho de 2008

MÚSICAS-DANÇAS-INICIAÇÕES I/II

Pois, pois também quando era pequeno, conseguia dar escapadelas ao controle da minha avó, dizia-lhe que ia brincar para a viela (um acesso estreito) que ficava nas traseiras da casa, mas ia para a rua.
Naquela época havia muitos tascos (tabernas) pela redondezas, locais onde se juntavam os homens principalmente, matando as horas e os dias sem trabalho, à espera de uma oportunidade para a estiva (descarga de Barcos), a acalmia do mar para a pesca, ou somente para se abrigarem dos dias de inverno e ou afogarem suas mágoas no vinho. Eram homens que dificilmente conseguiam estar em casa afastados da beira-mar.
Mas acredita Guilherme, que estes homens tinham mais honra e dignidade que muitos dos de agora bebem wisque ou choots.
Então eu, isto acontecia aos Domingos de tarde, conseguia às vezes ir para as tais tabernas, porque havia sempre um um grupo de homens a tocar e cantar (conjunto musical como se designava) musicas populares e às vezes fado. Então essas tardes eram um mundo raro e muito indecifrável para mim. A alegria reinava, havia algumas mulheres e algumas crianças presentes. Brincava-mos às escondidas pelos recantos e à volta das mesas quadradas cheias de copos meio-bebidos de vinho tinto, pão, azeitonas, bocados de bacalhau salgado, um ou outro chouriço de lata (chouriço de conserva em grandes latas que era muito gostoso) e nós entre uma corrida e outra ia-mos petiscando algumas dessas "iguarias", obtidas repentinamente para não dar oportunidade a que nos mandassem estar quietos ou nos corressem dali para fora. Azáfama que só acalmava quando alguém nos obrigava a sentar-mo-nos no chão em frente ao agrupamento musical para ouvi-los tocar. Até que aparecia a minha avó, que entrava por ali dentro com um ar altivo, a poucas pessoas falava e segurava-me firmemente e saíamos dali com a mesma velocidade que entrou, sem me dar nenhuma hipótese de protestar. Era sempre assim que terminava o meu interesse por aquele tipo de brincadeira.
É neste ambiente que tenho o primeiro contacto com a música e ao vivo.
Desde pequenino que assistia e ia dar umas voltinhas com a minha mãe às festas de S. João, que se desenrolavam mesmo à frente das minhas janelas e de facto a música que era transmitida pelos altifalantes fazia-me muita confusão de onde ela vinha.





As ornamentações começavam no fim das Palmeiras (ou Jardim do Passeio Alegre) e iam até junto à casa da minha tia Maria de quem já te falei. Esta ornamentação eram mastros de madeira com bonitas decorações feitas em madeira fina e forradas a papel fatiado (às tiras), as lâmpadas era encobertas com balões de papel de cores variadas com o formato de um copo.





Passava pelo largo do Marégrafo onde se realizava um grande bailarico, as pessoas dançavam durante horas e horas mais ou menos agarradas, por cá ainda estava muito desconhecida a musica "rock and rol ". Mas havia uma excepção. As peregrinações dos ciganos que eram muito devotos às festas de S. João. Eu ficava fascinado pela sua forma de dançarem, principalmente quando tocava tangos, era para mim um perfeito bailado, dançavam afastados só as mãos se tocavam, com geométricos passos de dança.
Era com este ambiente que o avô desde pequenino pelo menos uma vez por ano durante quinze dias, tinha música várias horas, todos os dias a entrar em casa devido ao volume dos altifalantes e à proximidade. O que acaba por me levar para a frente do tal guarda-roupa em frente ao espelho, ensaiar os meus primeiros passos de dança ou o karaoke da época. Fingir que cantava em frente ao espelho.
Bem que mais te posso dizer sobre esta infância nestes mundos ? Num instante posso acrescentar que mais tarde, mais rapazinho ajudava (ou andava no meio) da concretização destas festas, mas depois conto-te.
De facto assisti a muita musica a muita alegria, mas não sabia que havia outras músicas e outra forma de ouvir música.
E isso descobri quando comecei a ir a casa do meu primo Pedro de quem já te falei, e o meu tio Diogo (o tal pai austero) começou a dar-me alguma atenção até então negada.
Empregado bancário administrativo, tinha como hoby a electrónica para o qual comecei a dirigir o meu interesse e lá me ia sentando muito quietinho ao lado dele, a vê-lo a fazer umas montagens a construir uns rádios a válvulas. Não gostava muito dele, tinha medo dele, mas reconheci mais tarde, adolescente, que era um homem muito inteligente, mas politicamente enigmático. É nessas tardes ou pequenos serões que ao mesmo tempo que sorvia os poucos e pequenos ensinamentos que ele me dava sobre o que estava a fazer, ia escutando através das suas aparelhagens de alta-fidelidade (Hi-Fi) com um nível sonoro baixo, musicas do Glen Miller, Benny Goodman por exemplo, mais as grandes obras sinfónicas de Handel, Chopin, Mozart e as penetrantes marchas militares que me causavam arrepios, em alguns momentos quando dedicava mais atenção. Estes arrepios vim a senti-los já adulto meu menino... mas arrepios de revolta com os mesmos sons.
Gostava de te referenciar as idades que eu tinha nestas fases, desculpa é-me difícil, tenho estas recordações mas não consigo dar-lhes uma ordem no tempo.
Portanto é nesta altura que tenho contacto com a música clássica de variados tipos sem qualquer apoio explicativo, eu é que intui a diferença.
Outra experiência, creio que quando andava na 3ª classe (3ºano) fui ver uma peça de teatro que agora não me lembro nada de nada do conteúdo mas uma coisa não esqueci; o tema musical era a "Valsa da Meia-Noite" e os actores vestidos com fatos muito coloridos e rendados.
Neste momento deves pensar que eu era um puto que se ia tornar num bom dançarino...
Entretanto terei chegado à crise do armário, não sei neste momento se quando me leres, já passaste ou ainda vais passar por isto, olha que às vezes é muito complicado, cuida-te...
Bem entre estas andanças e mais umas semelhantes cheguei aos meus treze, quatorze anitos.
O primeiro amor, o aprender a despertar a atenção da miúda eleita, era uma trabalheira dos diabos.
Sim porque não é como agora tudo ao molho e fé em Deus, tudo se tornando fácil, mas sem consistência na maioria dos casos, principalmente ao nível dos sentimentos humanos.
As miúdas deste tempo tinham o tempo ocupado com os estudos, ou então na sua maioria já começavam a trabalhar em algum atelier de costura onde era feita roupa por medida, principalmente para senhoras. Como diversão além de se ir uma ou outra vez ao Cinema não passava de uns passeios ao Domingo pela Avenida da Foz, pelas Palmeiras, ir comprar uns sorvetes às esplanadas das praias.
Bom mesmo, eram os bailes nas salas das Colectividades (Associações Populares de carácter cultural), pois era bom, mas não para mim. É que o teu avô Filipe era muito aventureiro, mas bastante tímido. E as raparigas iam sempre a esses bailes acompanhadas de uma irmã muito mais velha, uma tia e às vezes com a própria mãe. Havia uma rapariga linda, linda como uma estrela, chamava-se Fátima. E era tão linda que para mim bastava-me olhar para ela. Sabia dançar e eu que ainda não sabia nem nunca tinha aprendido fiquei muitos meses numa posição desconfortável, mesmo tendo muito poucas possibilidades de vir a dançar com ela devido à vigilância por terceiros.
Bem, se pensas que foi ela que me ensinou a dançar, estás enganado. Nunca dancei com ela. Escusado será dizer-te que foi o primeiro amor, e muito difícil, porque ela tinha um pai que devia talves considerar o namoro um sacrilégio, e eu tinha uma mãe que devido à rede de informações que tinha, sabia sempre onde eu tinha estado. Portanto nossos passeios eram muito clandestinos pela ruas da Foz e graças à cumplicidade das amiguinhas dela.
Estou a dar-te estes segredos, mas não te preocupes que avó Adélia conhecia-os.
Assim se passaram perto de três anos. Continuando a ouvir música aqui e acolá, mas dançar nada.
Ao fim deste tempo concordamos, devido principalmente à rudeza do pai que o namoro tinha que acabar, ou melhor ser interrompido até um dia...que nunca mais veio por circunstâncias várias; culturais, opções, rumos diferentes...

Entretanto começa a aparecer a onda rock americano ,começam a propagar-se os "bailes de garagem" (bailes de pequenos grupos de jovens) pela rapaziada e deixando de ser um privilégio dos meninos ricos em realizar esses bailes.
O Frias (é o nome de um rapaz) filho de um casal que tinha um Salão de Cabeleireiro já na zona rica da Foz para as "senhoras finas" era um dos meus amigos e começou a realizar uns bailezinhos mesmo... na garagem da Vivenda, com a conivência da empregada de lá de casa quandos os pais dele iam para fora aos fins-de-semana. A empregada embora mais velha que nós, ainda era bastante nova, mas já estava influenciada também pelas modernices que começavam a chegar de fora. A música do Twist, as saias mais curtas, as camisas mais um pouco decotadas, roupas mais coloridas e mais umas modinhas como o fumar por exemplo, não que as mulheres não fumassem, mas mais descaradamente, era muito depreciativo na sociedade da época.
Ela encobria as nossas ousadias e até nos fazia uns lanches bons.
Contudo, apesar de ter ido a muitos bailes na garagem do Frias, continuei sem aprender a dançar, apesar de esporádicas tentativas de algumas moças em me ensinarem. Raios porque era tão tímido ?
Entretanto há aqui um período que ando na orla de um grupo musical, porque um dos elementos, mais velho do que eu, como reconhecia que gostava muito de mexer em botões e coisas eléctricas, digamos que apadrinhava a minha vontade de colaborar, mas foi sol de pouca dura porque não gostava de estar sempre a ouvir as mesmas músicas nos ensaios.
Depois de ter circulado por muitos bailaricos, brincando enquanto infantil, com postura de um rapazinho e depois querendo arrastar a asa a alguma amiguinha, lá fui penando pelo meio das amigas e amigos que eu tinha e que sabiam dançar tão bem mesmo com os novos ritmos que estavam a chegar.
HUFFF.... finalmente chega a altura em que aprendo a dançar da forma mais rocambolesca que tu possas imaginar e não imagines nada, porque os primeiros passos de dança a sério com uma rapariguinha muito arisca, no sentido de que ninguém estava triste ao pé dela, foi num cantinho de uma Igreja, quase na obscuridade, mas com muita gente próximo, e mais não conto por agora.
Fica para a próxima carta. Ok?

23 de julho de 2008

Nana Mouskori JE CHANTE AVEC TOI LIBERTE

Meu Netinho, encontrei esta música, a que vezes sem conta te cantarolava baixinho quase ao ouvido, enquanto passeava contigo ao colo pelo quarto, para tu adormeceres. Ora experimenta a fechar ligeiramente os lábios e trautear a música; era como o avô fazia. Quem me deu a conhecer esta artista e algumas das suas canções, como o Menino do Tambor foi a avó Adélia.

18 de julho de 2008

A SOPA DA MINHA VIDA

Devia ter a tua idade de agora sete anos, talves não... porque não me lembro da escola quando aconteceram os factos que te vou contar. Tudo à volta de uma tigela de sopa.
Concluí nesta idade que não gostava de "Caldo Verde" embora me agradasse os legumes das mais variadas maneiras.
A minha Avó Amélia, fez desta sopa para o jantar e nesse dia decidi que não gostava dela (porque não me lembro de outros episódios com Caldo Verde) e a avó ia insististindo comigo para comer a sopa. Mas não estava disposto a colaborar por qualquer razão. E apesar dos meus apelos, a avó não desistia, mesmo com a minha mentira, protestando, de que a sopa era ou estava azeda.
Mas ela não desistia, embora o Caldo Verde possa azedar (estragar-se) com facilidade, não podia ser o caso, por ter sido acabada de fazer.
A avó Amélia decidiu sentar-se no banco (sim banco de madeira...porque dantes não havia cadeiras pela casa toda) e pegar em mim, pôs-me no seu colo e começou a dar-me algumas colheres de sopa.
A primeira, segunda, terceira, por aí fora, e eu gritando cada vez mais que a sopa estava azeda com toda a razão do mundo; a minha querida avó é que não tinha nenhuma razão para acreditar, embora nesse momento eu estivesse a dizer a verdade, verdadinha, e muito desesperado.
Finalmente, para descargo de consciência, a avó Amélia provou da minha sopa. Deve ter feito cara feia não me lembro, deve-me ter posto no chão e já não me deu mais para comer. Talves tenha dito que eu dizia a verdade.
Ela deve ter ido comparar com o sabor da que estava na panela e verificou que esta estava boa para para se comer.
Depois de um cházinho umas bolachinhas, uns vómitos à mistura a Dª Amélia começou a indagar o que teria acontecido naquela hora de jantar, numa casa grande, em que só estávamos nós os dois com uma tigela de sopa azeda.
Antes de te dar a conhecer o mistério, fica a sabendo que hoje em dia gosto muito de Caldo Verde e se for com Brôa, melhor ainda, aliás de todas as sopas, menos de Canja.
Não te esqueças que temos um acôrdo de que quando comesses tomate com alface, eu comeria um pratinho de canja. Foi o combinado.
O que aconteceu foi que o caldo verde estando talves apuradinho, entendi que estava "azedo" e com um açucareiro próximo de mim em cima da mesa, enquanto a avó estava de costas e a mandar-me comer eu coloquei algum açúcar dentro da sopa e claro azedou mesmo... o que me dava razão.
Passei umas vinte e quatro horas "doentinho" com muita tralha na cama para brincar e acabei por contar o segredo face à simpatia da senhora minha Avó.
COME SOPA GUILHERME, É IMPORTANTE PARA A TUA IDADE ADULTA.

17 de julho de 2008

A CRIANÇA E A RELIGIÃO


Neto, lembras do avô te falar muito de barcos, e pareceu-me que gostaste, porque foram muitas as viagens de barco no Rio Tejo que fizeste comigo, lembras-te?. Aliás nunca te faltava um barquinho na banheira, quando tomavas banho. Para finalmente possuíres um telecomandado que te dei, e que temos ido algumas vezes brincar com ele. Escrevo isto, para te relembrar que fui criado no meio de gente do mar; marinheiros e pescadores.

Também o meu Avô foi marinheiro, mas não o conheci porque ele morreu durante a II Grande Guerra a bordo de um Navio Inglês, que foi tropedeado por um submarino. Falar-te-ei sobre ele qualquer dia.


Perguntas o que tem isto a ver com religião e a criança?





Tem porque as pessoas ligadas ao mar são quase sempre muito crentes em Deus, Jesus, Maria.
Imagina estes quadros:
Um grupo de alguns homens à pesca só com os seus conhecimentos inerentes à sua faina, orientando-se pelas estrelas ou algum Farol em terra, sozinhos de noite no mar, com uma pequena luz dum candeeiro a petróleo e dento de uma pequena e frágil embarcação vencendo as ondas e as voltas repentinas de mar, e com ventos. É muita solidão para que um homem sózinho no meio da escuridão, no seu mais íntimo não apelar a qualquer coisa para além de si.

O outro quadro, um navio (naquele tempo: Vapor) no alto mar, sem as tecnologias que hoje existem como navegação por satélite, piloto automático e outras capacidades técnicas, navios de difícil manobra que não obedecem imediatamente por serem grandes, dias e dias de isolamento no mar, ás vezes vencendo tempestades com ondas enormíssimas que até parece que a proa (frente do barco) se vai enfiar pelo mar dentro.
E as mulheres destes homens?. As dos pescadores esperando pelos maridos, irmãos ou filhos na praia ou no cais esperando pelos barcos que se aproximassem de terra e muitas vezes como o avô também viu, afundarem-se quando estão a entrar a barra, depois de uma noite na faina da pesca. Eu vi já com a tua idade algumas Bateiras a afundarem carregadas com as redes molhadas, peixe, acessórios e três a cinco homens com fatos de oleado e botas altas a serem engolidos pelas águas, ou então serem arrastados pelas redes que se espalhavam.

2º esquerda 1º esquerda

Outras mulheres esperavam muitos e longos dias pelo regresso dos maridos embarcados no mar e naquele tempo com o medo da guerra. Os barcos grandes também encalhavam frequentemente próximo da costa, porque como disse não havia as tecnologias de agora, que nem se imaginavam na época.

Portanto todo este povo precisava de ter fé num Deus.

E foi assim o ambiente em que fui criado, com a minha avó; a minha mãe digamos que não era tão absorvida pela religiosidade, embora católica, era mais "terrena". Possuía a quarta classe e na época, não era aquilo que se pudesse chamar de todo inculta ou analfabeta. Para uma mulher já era muito bom, porque a esmagadora maioria, não completava a instrução primária (agora o básico).

Sabes que antigamente as mulheres de mais idade principalmente as dos pescadores ou marinheiros, por volta das seis, sete horas da tarde rezavam o Terço. O terço era uma espécie de colar com bolinhas e cada bolinha correspondia a uma oração, como a 'avé-maria' 'pai-nosso' 'salve-rainha' e outras. Esses terços tinham um determinado número de bolinhas que agora não sei, talvez trinta ou coisa assim. Estou com um na mão na seguinte foto.


Nunca vi a minha avó a rezar com o terço nas mãos, mas eu tinha a certeza que ela rezava mentalmente como as outras mulheres. Também não frequentava muito a Igreja era raro, só ia às missas pelas pessoas que morriam conhecidas dela.




Mas havia um período que antecedia a Páscoa que ela não faltava. Eram umas missas que havia sempre à noite.
Embora, mais crescidote, eu fosse à missa aos domingos, mais para ver as amiguinhas que outra coisa, aquelas missas da Páscoa em que ela a minha avó queria sempre a minha companhia, tiveram muita importância para mim. Mas frequentemente adormecia porque era à noite depois do jantar.

Nessas missas havia sempre o sermão,... é quando o Padre está a falar para as pessoas durante um bom tempo, numa tribuna (tipo uma varanda a meia altura da parede da Igreja). Num cenário, que por ser Páscoa, todos os santos da Igreja estavam tapados com grandes cortinados de cor roxa (?) cor de vinho. Significava a morte de Cristo. É neste clima com o cheiro à cera das velas e das flores, eu escutava concentrado e com toda atenção o que o padre dizia naquele silêncio das pessoas, acompanhado do eco da sua voz dentro da Igreja.
Ele tinha uma fraseologia que eu não ouvia da boca das outras pessoas, palavras e frases novas que me despertavam interesse porque não as conhecia, as histórias (o Evangelho) que não compreendia pela sua carga de simbologia. Então quando conseguia compreender algo que o padre tivesse dito, isso despertava-me uma sensação parecida à de quando li o primeiro livrito e consegui acompanhar a história nele contida. O que me treinou para um melhor poder de interpretação de leitura na escola e compreensão das palavras.
Os símbolos da minha "adolescente religiosidade" eram uma estatueta de Sr.ª de Fátima que foi oferecida pelo meu Avô à minha Avó, um Menino Jesus em cartolina pequenino de ter ao lado da cama, um quadro pequeno da Sagrada Família e por último um quadro do Coração de Jesus que já não possuo.

Por outro lado, uma actividade religiosa, que me deixou recordação, era no Domingo de Páscoa. Padres com pequenas equipes de ajudantes em que um levava a Cruz de Cristo, outro transportava o balde da água Benta (água benzida em cerimónia pelo padre), pois, a água com que benzia as casas em que entrava; à frente andava sempre outro elemento com um pequeno sino a anunciar com o seu badalar a chegada da Cruz.

As ruas ficavam bonitas com flores coloridas à entrada das portas de casa, que era o sinal de que as pessoas dessas casas queriam receber a Cruz. Havia sempre uma pequena mesa com amêndoas, pão doce (já me lembro Pão de , muito fofinho) e outras coisas para o padre comer se quisesse. Quando entrava na casa o sujeito que tinha o balde com a água benta, aproximava-se do padre que pegava numa espécie de pequeno tubo metálico, que ao ser retirado do balde transportava um pouco de liquido e com isso chapinava o local. Chamava-se a isto benzer a casa.

Claro que antes e em primeiro lugar tinha entrado o homem que transportava a cruz para que toda a gente a beijasse.

Mas... quando entra o teu avó nisto tudo ?

No mais agradável da Festa. Andava com outros rapazinhos a correr de um lado para o outro a seguir o grupo do padre que percorria as ruas da Foz onde eu vivia. Algumas vezes o homem do sino deixava-nos transporta-lo um pouco a badalar. E sempre as pessoas, porque estava-mos à porta à espera da saída do padre para ir-mos atrás, para outra seguinte, davam-nos amêndoas e outras lambarices.

Este meu estado de religiosidade acabou com a minha Comunhão Solene, vestido a rigor, com um fato, uma Opa azul e branca, vela numa mão e missal (resumo da bíblia) na outra.
Foi uma grande cerimónia na igreja com meninos de um lado meninas do outro dentro da Igreja (era assim e não podia estar ao pé da minha amiguinha, numa foto está exactamente atrás de mim e na outra não tive coragem e fiquei afastado para o lado).


Depois um grande lanche com muitos rapazes e raparigas, muitos santinhos trocados entre nós (figuras religiosas em papel) e algumas prendas dos adultos. A acrescentar a isto a imaginação de um rapazinho que estava a casar com uma amiguinha, tal linda princesa que também fez a comunhão comigo, sendo que as raparigas iam vestidas quase como noivas.
Gostaste da gracinha,foi?!...
Fui educado na crença da existência de Deus sem fanatismos ou obscurantismos, agora adulto e com esta idade não sei se acredito num Deus. Mas uma coisa acredito. Que há muita injustiça e fome no mundo e Deus nada faz.
Portanto eu acredito no "nada" que somos quando o nosso coração deixa de bater.

Há contudo um livro chamado Bíblia que na minha opinião não é mais que um rol de histórias ou profecias escritas por homens, não por Deus. Para compreender estes escritos primeiro temos, ou devemos conhecer-mo-nos o melhor possível, se não obstruirmos a nossa compreensão do Homem e do próprio Mundo.

Apesar disso Guilherme, por que os homens são livres de terem a fé e a religião que desejarem devemos respeitar e não interferir com as suas concepções, porque a religião em certo aspecto são frágeis capas de "gelatina" que moldam os indivíduos.

13 de julho de 2008

UM AMIGO ARTISTA

Por volta dos meus 15/16 anos, ainda te falta muito para lá chegares Guilherme, o avô tinha dois amigos irmãos um deles o mais velho talves dois anos mais velho que eu, o João.

Era um grande artista a fazer desenhos a lápis, carvão e até, imagina com fósforos anteriormente queimados. Era o João Ferreira, um rapaz muito calado, não tinha continuado os estudos, mas andava sempre com um livro debaixo do braço e ia para os cafés ler, levando com o livro umas folhas de papel e no bolso sempre lápis e esferográficas.

João não gostava muito de mim porque para o feitio dele eu era muito falador. Mas um dia no café depois de assistir com uma roda de amigos, ao trabalho de pintura que ele fazia com o liquido dos restos do café que estavam nas nossas chávenas, tendo como pincel um guardanapo de papel enrolado de forma especial para lhe prestar o serviço que ele desejava, consegui convidá-lo a ir para minha casa, porque tinha lá folhas de papel de vários tipos que a minha mãe trazia da patroa que era uma Srª inglesa, e dava aulas no Colégio Inglês.

Então o João começou a ir até minha casa e a antipatia dele desapareceu durante algum tempo. Era um rapaz revoltado, filho de um taxista que não compreendia que o filho só vivia para a arte. Mas em 1965 em muitas e muitas familias era necessário que os filhos começassem a trabalhar cedo e na melhor das hipóteses iam estudar à noite. Um dia fiz-lhe o desafio de reproduzir uma foto minha tipo passe, e ele aceitou. Ainda colaborou num Jornal que vários rapazes e raparigas criaram na Foz.
Deixei de o vêr a partir de certa altura da minha adolescência. Um pouco casmurro, mas foi um bom amigo.
É este o trabalho dele que ainda guardo com carinho ao fim deste tempo. Sabes para que queria este desenho do meu rosto?. Muito simples. Era para oferecer à minha primeira namoradinha a sério, que eu tinha com os meus tais quinze aninhos.




12 de julho de 2008

AS MINHAS LUNETAS



Tal como agora, em criança entre os oito e dez anos talvez, também usei óculos para correcção da vista. O seu uso limitava-me muito. Por exemplo, quando vinha da escola se estava a chover era uma chatice, porque ficava com os vidros molhados, e isso aborrecia-me.
Depois no regresso a casa quando passava pelo jardim do Passeio Alegre um jardim que eu não dispensava de ir sempre para lá quando vinha da escola, porque também lá estavam os "meninos ricos" com os seus carrinhos miniatura (eram de ferro e pesados) a fazerem corridas nos caneiros de rega dos canteiros. E também nesta brincadeira, como estava sempre com a cabeça para baixo para empurrar o meu carrinho, só tinha um, nunca podia perdê-lo de vista, os óculos tinham tendência a caírem.

Mas um acontecimento não intencional finalizou o uso dos óculos.
Um dia tirei os óculos para ir brincar, também no mesmo jardim colocando-os junto da mala da escola. Quando me fui embora peguei em tudo, menos nas "lunetas" e fui para casa descontraido. A minha avó perguntou-me pelos óculos, fiquei desorientado, expliquei-lhe o que tinha acontecido, e coitadinha lá foi comigo para o jardim procurar os óculos, mas não os encontramos.

Sabes que a minha avó nunca me batia, ficava muito zangada, fazia-me severos discursos, mas...
depois tudo passava e tratava-me por "meu menino".

E aqui deu-se por finda a minha fase das lunetas.

O CHAPÉU DE PALHA E O DIRECTOR ESCOLAR








Maio/Junho, quase fim do ano escolar andava o avô no primeiro ou segundo ano do Ciclo Preparatório (agora o 4º ou 5º ano respectivamente) na Escola Secundária de Matosinhos. Ficava à distância de uns vinte minutos de Eléctrico, apanhava o Eléctrico nº1, com destino a Matosinhos. O percurso era muito lindo, porque era sempre pela marginal, sempre em contacto visual com o mar.
Somente na parte final do percurso o eléctrico circulava pelo meio das muitas fábricas da indústria conserveira, principalmente da sardinha, à mistura das de torrefacção do café e da refinação do açúcar.
De manhã quando ia para a escola saía quase no fim do percurso do transporte. E o primeiro cheiro que me chegava às narinas era o cheiro das sardinhas e do mar.
Depois ia por aquelas ruas (muito rectas e verticais ao mar) e começava a sentir o cheiro de café torrado e também um cheiro muito doce do açúcar, às vezes era tão intenso que parecia que o tínhamos na boca. Claro que isto variava um pouco conforme os ventos.
Neste tempo os bilhetes eram vendidos por um senhor que andava dentro do Eléctrico com uma mala a tiracolo, designava-se por Cobrador (agora o Pica).
Vamos então aos acontecimentos do CHAPÉU e do DIRECTOR da escola.
Neste período do mês havia uma grande festa local (arraial) muito conhecida, o "Senhor de Matosinhos", que antecede quase imediatamente o "S. João" do Porto. O seu ponto central, era no grande jardim em frente à minha escola. Havia todo o tipo e tamanho de Carroceis (muitos mais do que aqueles que já viste nos nossas passeatas), muitas barracas de diversão, comida, louça e bonecos de barro era nesta altura que se comprava mais alguns bonecos para as nossas cascatas para a festa do S. João (depois falo disto tenho tempo).
Guilherme os pormenores são como as cerejas, vamos lá ao chapéu.
Portanto festa local, igual a férias escolares. E...como tinha uma avó muito amiga e querida, que me dava vinte e cinco tostões, (2$50 dois escudos e cinquenta centavos) que era suficiente para ir de Eléctrico até Matosinhos e encontrar-me com os meu colegas que residiam por ali nas proximidades. Com os meu tostões e os deles fazíamos grande festa nos carroceis e matraquilhos. Agora já posso falar no chapéu.

Neste tempo as crianças usavam um chapéu muito parecido com o da figura, mas com um pormenor, alguns tinham uma pequena penugem ou uma pena de uma ave qualquer, colorida metida na fitinha.
Eu não usava estes chapéus de palha, usava boina. Não gostava muito deles, tinha alguns inconvenientes para mim: voavam facilmente o que era mau para quem andava por perto das praias como eu, se o quisesse tirar para fazer qualquer coisa tinha que lhe pôr uma pedra em cima para não voar. Só chatices...
Chatices tive eu com um igual, de um colega da escola. Nessa tarde que fui para Matosinhos depois de uma tarde de diversão, resolvi simpatizar com o até agora dito chapéu e tirei-lho para andar com ele na cabeça, mas pelos vistos era um objecto de estimação do meu amigo. Coitado fartou-se de mo pedir, andar atrás de mim à volta das barracas da festa.
Mas ele parecia ser mimado demais, então o meu interesse pelo chapéu passou para a brincadeira estúpida de fazer sofrer um amigo.
Ainda foi durante um bom tempo assim, até que deixei de o ver. Tinha desaparecido o meu amigo. Sabia que ele residia numa das ruas próximas, mas não exactamente o local. Tentei encontrá-lo ingloriamente no meio das pessoas e barracas e nos carroceis, nem a sombra dele. (Não me recordo do nome, lembro-me que tinha outro irmão).
Sem saber o que devia fazer e como não queria levar o chapéu para casa porque teria que explicar muito bem a história, resolvi ir junto dos portões da Escola e pasma-te; atirar o chapéu para dentro da escola através do gradeamento.
E sabes porquê ? Porque nunca tendo roubado, senti-me como um ladrão sem o ser.
Esse amigo deu-me toda a oportunidade para lhe devolver o chapéu e eu não o fiz.
Bem fui para casa com a consciência aparentemente tranquila porque tinha deixado o chapéu dentro da escola que estava fechada pensando ser um lugar seguro, e como ele morava por ali talvez o encontrasse.
Agora o outro lado da medalha: O DIRECTOR (as escolas tinham um director e não um Conselho Directivo).
Passado poucos dias chega um postal pelo correio dirigido à minha mãe para ir à escola na minha companhia para falar com o Director. A minha mãe pergunta-me o que seria aquilo ao que eu respondi que não sabia para o que era. Isto em pleno período de férias o assunto deveria ser grave.
Se eu não tinha feito mais nenhuma malandrice só podia ser o chapéu, e creio que durante dois dias até à data e hora de lá ir com a minha mãe, o meu cérebro deve ter trabalhado que nem o primeiro computador inventado pelo homem. Como é que eu ia provar que não tinha como intenção subtrair o chapéu do meu colega de escola.
Entramos num gabinete onde estava na sua cadeira um Sr. que eu conhecia, mas que nunca tinha falado com ele. Era o Director. Depois dos cumprimentos, expõe a acusação à minha mãe que me dirigia algumas palavras (não me lembro exactamente quais) até que depois de alguma conversa, tive uma pequenina (como eu me sentia) oportunidade de expor a minha versão dos acontecimentos.
Houve uma breve explicação dos factos do ponto de vista do director à minha mãe, face à queixa dos pais do meu colega e determinou-me a suspensão de dois dias de aulas quando elas recomeçassem.
Sentença proferida pelo "Sr. Director" e mais uma imediata e valente bofetada dada pela minha mãe, que quando cheguei a casa ainda tinha os dedos marcados na face.
Como podia eu provar o contrário?.

Guilherme, muitas vezes devemos antecipadamente ponderar bem os nossos actos.

UM PARTO DIFICIL




Como deves imaginar à quase sessenta anos, não havia a 'rede hospitalar' que há hoje, Maternidades, nem tão pouco 'centros de saúde'. Havia os hospitais nas principais cidades, muitos médicos que faziam consultas particulares e pouco mais. Digo-te a propósito que havia alguns médicos que mereciam ficar para a história por terem abdicado em parte dos seus honorários para darem assistência aos pobres. Alguns deles chegavam a dar dos medicamentos que tinham nos seus consultórios. Em abono da verdade também havia algumas Farmácias que funcionavam como as Mercearias com o livrinho das dívidas dos clientes, sine-dia.
Mercearias eram os locais onde se vendia produtos alimentares.
Já agora fica sabendo que Portugal era um País muito pobre e que tinha acabado dois anos antes a segunda Grande-Guerra.
Isto para introduzir o parto do qual eu nasci segundo o relato repetido muitas vezes, principalmente quando eu fazia alguma asneira mais desesperante. No fim, ficas a compreender.
A minha Mãe deu-me à luz em casa, assistida por uma Parteira, chamava-se Sra Ricardina.
As parteiras da época digamos que eram umas enfermeiras auto-didactas, com uma personalidade muito rude de fazer fugir o diabo. Apesar disto ainda tive de levar com algumas injecções, quando estava doente, dadas pela sra Ricardina.
Segundo a minha mãe nasci em casa e com alguma dificuldade para ela.
Estás a imaginar um parto em casa... (a minha avó Amélia estava presente) depois das limpezas e outras regras de um nascimento, e a minha mãe já comigo nos braços ouve um comentário que a fez pôr a parteira fora-da-porta.
"Trate-o bem que ele não vai durar muito tempo" que era eu...disse a parteira.
Pois foi...! ainda aqui estou, era por isso que quando eu fazia aquelas asneiras de criança, alguém me recordava que, de quem tinham dito não ir viver muito tempo estava a fazer una traquinice muito grande....
Também e talvez por este pequeno acontecimento, eu tivesse tido todo o amor da minha avó e o afecto silencioso da minha mãe.

11 de julho de 2008

APRENDER A NADAR


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Talvês, com os meus oito anos, uma das minhas aventuras de "natação" era ir para casa da minha tia Maria, que ficava muito próximo da casa da minha avó na Rua do Passeio Alegre. Era uma casa antiga (como todas daquela rua), mas esta não tinha electricidade. Recordo-me que era uma casa com muitos recantos e um pouco escura, tinha um grande quintal à frente com um tanque de lavar roupa. Era um tanque enorme. Muitos anos atrás havia em alguns locais tanques de água comunitários, onde as mulheres lavavam a roupa. Portanto eram caixas de água corrente para dez ou vinte mulheres lavarem a roupa.

O da casa da minha tia Maria, era na minha imaginação (ou para o meu tamanho) enormíssimo o que me permitia dar algumas braçadas à "cão", porque ainda não sabia nadar.
Imagina agora um quintal, numa tarde de Verão ou Primavera dentro de água a tomar banho e brincando com tudo que pudesse fazer de barquinhos, num grande tanque, só para mim e... com um cheiro delicioso de uva americana de uma videira que o cobria na totalidade fazendo sombra.
Enquanto isto, a duas irmãs minhas avó e tia sentadas algures à sombra, estavam "sarrotando" quero dizer a conversar e a costurar, fazer meias ou alguma camisola para o inverno.
Havia muitos gatos, mas bom, bom mesmo, era a hora do lanche. Maçãs à fartura, havia lá uma ou duas Macieiras, davam daquelas maçãs um pouco ácidas com muito sumo. E uma caneca de cevada (uma bebida parecida com o café) acompanhando a Sêmea (pão escuro) com marmelada ou manteiga. Isto numa tarde de verão... à sombra, num quintal emanando diversos aromas de plantas, o cheiro a lenha e ao carvão do fogão é difícil de te transmitir as sensações que me causavam, mas diria que todos estes cheiros transmitiam vida, da própria vida das pessoas e dos seus lugares.
Se me tapassem os olhos eu saberia em que casa de quem estava a entrar.
Aquelas uvas caracterizam-se por serem muito doces, distinguindo-se de qualquer outra espécie, mas em excesso provocavam uma tempestade nos intestinos de qualquer criança.
Estarás a pensar: mas um puto de sete/oito anos sozinho num tanque ? Nada de especial, porque as crianças de então não eram tão super protegidas. Muito cedo exercitavam as suas capacidades físicas e de orientação, brincando nos campos e matos, nos jardins, junto ao rio amarravam os barcos pequenos, cedo aprendiam a remar e a nadar, brincavam pelas diversas ruas sem automóveis.
Não quer isto dizer que as crianças daquele tempo andavam abandonadas, pelo contrário estavam vigiados pelos vizinhos. As pessoas nas suas andanças naturalmente reparavam nas crianças dos outros dando atenção aos locais onde estavam.

Vou dar-te três exemplos:
- Ia a correr com outros rapazinhos amigos numa rua e de repente uma voz de mulher que aparecia repentinamente no meu caminho perguntava: "A tua mãe já veio do trabalho ?". Azar eu tinha sempre a minha avó em casa.
- Outra punha-se à minha frente e dizia: "O que andas aqui a fazer ?, vou dizer à tua mãe que andas aqui. Vai para casa.
- Chegava a casa e a minha avó: já te disse que não quero que vás para tal "sitio". Raios como é que ela soube, até nem encontrei ninguém conhecido...E era no mesmo dia.

Estranho... não é meu Neto...?
Já agora, imagina que quando tive a primeira namoradinha "sofri" muito, porque não havia sitio por onde eu passasse que a minha mãe não soubesse e às vezes também antes de eu chegar a casa. Como é que ela sabia que eu tinha passado com uma pequena, numa determinada rua, numa determinada hora ?
Voltando a casa da minha tia. Mesmo que ela não estivesse em casa embora pudesse escalar o portão, não precisava de fazê-lo porque à frente existia (ainda existe) uma fonte muito linda que faz de parede ao quintal e também aí tinha algum espaço para brincar na água.
E muita sorte, porque em frente, era só atravessar a rua, e tinha outros tanques para onde iam as lavadeiras (mulheres que lavavam a roupa das famílias ricas), mas aí não era conveniente porque havia muito sabão na água e elas, as lavadeiras não deixavam.
Não te preocupes, dentro de um ano ou dois estou a nadar no rio Douro como um peixinho.
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P.S. ainda não aprendi a intercalar as fotos no meio do texto, por isso são numeradas no texto.
Foto 1- A tal Fonte, no local da casa da minha tia Maria está um prédio recente. Depois de possivelmente ter caído de velha.
Foto 2, 3 e 4 os tais tanques junto ao rio em diferentes épocas.

9 de julho de 2008

OUTRAS NOVAS RECORDAÇÕES


Guilherme ontem completaste sete aninhos, já passaste para ao 2º ano.
E podes crer, que hoje já começas a ser uma recordação para mim de quando te lia histórias, te cantarolava ao ouvido e te punha na caminha, te dava de papar.
As idas aos Parques e tantas outras coisas de que tu gostavas.
Também és parte dos meus recortes que são destinados a ti, meu neto.

7 de julho de 2008

OS LIVROS DE AVENTURAS






Os livros de aventuras quando eu era pequeno não tinham as características que teem hoje. Nem me lembro de se dar o nome de Banda Desenhada que talvês corresponda como se dizia na época "revista aos quadradinhos".
Não comecei muito cedo como tu (gostavas de brincar com os livros do avô) a ter livros para ver e brincar. Mas desde que a visa-avó Joaquina me começou a dá-los, nunca mais deixei de gostar de ler.
Recordo-me que tal vês com meus 9 anos, a minha mãe, quando chegava do trabalho já no fim do dia, a maior parte das vezes eu já estava na cama. Mas acordado porque me trazia frequentemente um miminho, como um soldadinho em plástico, um chocolatinho, rebuçados, um bonequinho brinde de qualquer coisa, e às vezes... uma sobremesa doce que tivesse sobrado dos patrões. A visa-avó era como agora se diz empregada doméstica que na época era governanta doméstica.
Carinhos como o avô te deu pelo menos até agora quando hoje completas sete anos.
Ás vezes ia com minha mãe para o trabalho, e nos dias bons eu vinha brincar para o passeio (isto na Av. da Boavista no Porto) onde havia um tipo Quiosque que tinha muitas revistas para venda para brincava com o filho mais novo dos donos (não me recordo do nome). A estratégia do pai dele era dar-nos para ver suplementos de jornais antigos que tinham algumas histórias aos quadradinhos. Isto começou a despertar o meu interesse nas revistas que estavam por lá penduradas, mas era expressamente proibido mexer nelas.
Então em determinado altura numa das minhas explorações pela casa (recorda que na infância vivi em casa da minha avó, que era muito grande) descobri no sótão, não a cave que não havia, umas revistas de propaganda, restos da Grande Guerra que tinha acabado poucos anos antes.
Então não mais larguei as revistas, mas tinha um problema não as podia levar para a rua. Porquê ? Bem... não cabe agora aqui responder-te porque é um pouco complexo. Talvez lá para o fim do Blogue.
Mas hoje considero (porque não se punha tantos problemas na educação das crianças) que me ajudaram a que eu desde muito jovem compreenda melhor os sacrifícios humanos, porque essas revistas só tinham fotos de guerra.
E por qualquer razão a minha mãe começou então a trazer para mim quase todos os dias livros de aventuras, como o Bill The Kid, David Crocket, Tarzam, e outros como o Pato Donald, eram revistas formato A5 poucas folhas. E às vezes oferecia-me outros de formato maior como o Tim Tim, Cavaleiro Andante. Claro que foi em substituição dos outros miminhos quase diários, mas os soldadinhos em plástico consegui coleccionar bastantes.
Bem agora diverte-te...

1 de julho de 2008

OS BRINQUEDOS

Aqui está um tanque de guerra com lagartas e tudo. Era de dar corda para andar sozinho.
O meu primo Pedro teve um, mas eu brinquei com uma mota igual a esta que um menino da minha idade um dia estragou-ma.

Tive destes Barquinhos




Tive estes brinquedos menos a Lambreta (do lado esquerdo em baixo)

29 de junho de 2008

AGRADECIMENTO


Obrigado meu netinho por este trabalho que é o reflexo de quando eu te apresentava o Atlas como um livro de histórias e já conhecias o percurso que o avô fez de Portugal á Guiné Bissau, sabias onde se situava a Inglaterra a Espanha, França e Alemanha.
Será que ainda sabes, ou a play-qualquer-coisa já te empoeirou.... Um beijinho.
Tem a data de Dezembro de 2007

AS BRINCADEIRAS COM PRIMO PEDRO





Avô Filipe com cinco ou seis anos

Os brinquedos utilizados nas nossas brincadeiras eram umas camionetas, um cavalinho com carroça, um carro de bombeiros um ou outro barquinho tudo em chapa (folha de latão mas muito bem pintados) uns bonequinhos que eram brindes dos pacotes de Cevada.
O Pedro (o meu primo) que uma ou duas vezes por semana ia lá a casa com a mãe, a minha tia Elvira, às vezes levava algum brinquedo de "luxo" como era o caso de um Jipe militar que era de dar à corda e andava sozinho. Um tanque de guerra que andava e fazia estalidos com relampâgos na ponta do canhão.
Bem... nesses dias eu tornava-me num cachorrinho amedrontado e triste; primeiro porque ele tinha tendência a não me deixar brincar com as coisas dele, segundo se eu insistisse sofreria com o ímpeto agressivo que ele tinha.
Ele tinha brinquedos mais caros de que os meus. E porquê ?
Muito simples, o pai era Funcionário bancário e o avô paterno Gerente bancário.
Neste tempo, pós-grande guerra, estou a falar de 1954/5/6 isto fazia uma grande diferença na sociedade.
Mas... claro que há sempre um mas. Eu tinha umas pequeninas coisas (um dos pequenos tesouros da minha vida) de que ele gostava muito de brincar com elas.
Imagina... A miniatura de uma mala de viagem que naquele tempo era de cartão, teria talvez uns 35x20x10 cm. Dentro guardava um pincel da barba, linha fio do norte, agulhas de fazer rede de pesca, uns paus de madeira muito dura que servia para os marinheiros desfazerem os nós das cordas (creio que cunhetes) e outras coisitas que não me recordo mais.
E sabes que ele adorava brincar com isto. Enquanto eu tinha a voz da minha avó baixinho: "vai brincar com o carrinho dele". Aqui a minha avó tornava-se a sentinela do meu tesouro, principalmente para que ele não partisse as agulhas de rede ou se sentasse em cima da mala.
Falei dos meus tesouros e este como alguns outros que te descreverei mais tarde vinham do meu Avô que era marinheiro, morreu pouco antes de eu nascer, na grande guerra a bordo de um Navio inglês.
Claro que hoje não tenho qualquer ressentimento sobre as brincadeiras com o meu primo. Éra-mos crianças, embora estas condições se viessem a reflectir no nosso relacionamento adulto porque nos forjaram carácteres diferentes.
Agora o que é importante para mim é que desde muito menino aprendi que nem todas as crianças eram iguais.
p.s. vou procurar na net as imagens de brinquedos que eu tivesse tido,
na foto sou eu entre a minha porta e a porta da casa do Zé Manel do qual já escrevi.