19 de outubro de 2011

POSTO AVANÇADO - Guiné Bissau

POSTO AVANÇADO



Local: Galomaro, Guiné-Bissau (Jan/Fev. 1972)

Meu neto estou a tentar contar-te algumas recordações de quando o avô esteve na Guiné-Bissau (1) em 1971, durante a guerra colonial.

Fim da tarde, o ritual do jantar, noventa por cento das vezes constituído por Vianda e Estilhaços (arroz e pedaços de carne estufada) tinha terminado.
A maior parte dos meus camaradas do Destacamento dirigem-se para a Porta de Armas, onde já se encontram muitas jovens lavadeiras africanas das tabancas próximas.
Dá-se inicio à euforia de um baile de tentações, libertação de afectos em que também se libertavam alguns recalcamentos, pintalgando aqui e acolá um ambiente de risos, gritinhos e corridinhas fugindo de tentações, num desafio quase erótico.
Enquanto isto um pequeno grupo de homens preparam suas armas e restante equipamento necessário, para ocuparem os seu postos de vigilância e segurança, os patrulhamentos à volta do Destacamento. A saber, sentinelas no interior e no exterior, os “postos avançados”.
É neste clima que alcanço o meu primeiro grande susto nos dias das duas primeiras semanas que cheguei a Galomaro. (sector Leste da Guiné-Bissau).

Não estava destacado para nenhum serviço (o que muito poucas vezes aconteceu e ainda hoje não compreendo porque aconteceu), resolvi juntar-me a um pequeno grupo de camaradas com destino aos Postos Avançados. Esta decisão não foi motivada por qualquer tipo de valentia, mas porque pessoalmente tinha assumido, que procuraria ser conhecedor de tudo, conforme os objectivos que me levaram a aceitar o meu embarque com destino à Guiné-Bissau, mas que saíram em grande parte frustrados devido à doença, que originou a minha evacuação.
Juntamos-nos quatro homens, incluídos um Furriel mecânico e um cabo dos “velhinhos” (militares no fim da comissão militar) que ainda não tinha partido com destino a Portugal.


Porta de armas da Compª CCS - Bat 3872 - Galomaro 1971


Saímos a porta de armas, atravessamos o pequeno largo de terra batida (podes ver na foto), e ainda decorria o cerimonial da alegria entre militares e jovens africanas. Dirigimos-nos ao Posto Avançado, uma vala no solo, talvez a 400-500 metros de distancia em direcção da Porta de Armas do Destacamento. Transportava-mos a G3, sendo que o Furriel (mecânico) tinha aplicada ao cano da metralhadora um Dilagrama (Granada de mão que podia ser lançada com disparo da arma).


Com uma caminhada relaxante, chegamos ao destino, saltamos para dentro do buraco, encetamos conversa amena, enquanto por vezes o olhar de cada um de nós ia ao limite da vegetação, entre pondo-se uma Bolanha (2).
Claro que o contador de histórias naquele semi-silêncio relativamente próximo das tabancas, era o Velhinho, deliciando os Piriquitos (recém chegados à Guiné) como eu, com um imaginário de histórias, dolorosas umas e melodramáticas outras, das quais ainda não tinha-mos tido experiência, provocando concerteza em nós silenciosos receios.. Tiveram os meus camaradas mais tarde a experiência vivida de histórias semelhantes.


Tinha passado uma hora ou pouco mais, e temos na semi-escuridão o desenrolar de uma cena intrigante.
Um grupo de vacas (ou de bois?) caminhavam em direcção à nossa direita, sem alguma variação de percurso, nem um pequeno desvio... sempre em fila.
Gado inteligente, para um Velhinho astuto. Percebi depois... Diante do desfile, este explica-nos em voz mais baixa do que até aqui nas suas histórias; que o comportamento dos animais, devia-se a que estavam a ser conduzidos por pessoas escondidas pelo volume do corpo dos bichos.
Só se colocava em dúvida se era população afecta, ou mesmo guerrilheiros do PAIGC (3).
Já quase a saírem do nosso raio de visão, que fazer, disparar ou não?. NÃO.
O maior e mais natural e justo desejo do Velhinho, era proteger-se nestes últimos dias da sua permanência no mato.
A expectativa dos Piriquitos recém chegados ao mato, contribuiu para aquela decisão do mais velho e mais experiente de nós naquela vala cavada no chão, e... sem rádio p/ comunicações.


Passados estes intensos minutos, a conversa voltou quase ao normal, descomprimida que estava a situação.
O assunto passou a ser características das armas, um dos tópicos foi o alcance dos Dilagramas e consequentemente a munição a utilizar para o seu disparo.
Como um tiro certeiro, o Velhinho pergunta ao Furriel mecânico, que ainda tinha o Dilagrama introduzido na ponta da G3, que tipo de munição tinha no carregador para disparar o mesmo se tivesse sido necessário.
Bala de G3!...responde o Furriel.
Naquela temperatura amena de principio de madrugada, todos devemos ter gelado.
O Velhinho, com uma calma indesmentível pede a ponta da arma ao Furriel. E sem delongas retira o Dilagrama da ponta do cano da metralhadora, tudo num silêncio indecifrável.
Retirado o engenho deu-se inicio a uma rajada de impropérios,; caralh.. fodx-se queria-nos matar a todos...? O que veio para aqui fazer ...? e continuou tra tra tra tra.... (4)
Não consegui ver a cara do Furriel de frente, mas sei que não pronunciou uma palavra em resposta.
Passado o tempo estabelecido, voltamos ao destacamento. Chegados, cada um foi para o seu abrigo, talvez cogitando... procurar comer ou beber algo e dormir um pouco sempre incomodado pelos mosquitos (5).


Eu nisto tudo ?.. Nada de especial, só pensei que a primeira situação de perigo que se me depara é com os meus camaradas passado duas semanas, e não com o inimigo. Merda para isto, o que virá a seguir ?!

Mas gostei de estar na companhia daqueles camaradas naquela noite tropical, dentro de um buraco rectangular a que dão o nome de Vala (que não nos foi necessária nem para sobreviver, nem para morrer) contando anedotas, não cumprindo as regras. E o Velhinho estava a ser-me muito útil para os meus sonhos e realidades. Não os esqueci, embora não me lembre dos seus nomes.

(1) antes da independência, era chamada Guiné-Portuguesa.
(2) zona de cultivo de arroz principalmente
(3) PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. Movimento de libertação que lutava contra o colonialismo português.
(4) O Dilagrama (granada) só pode ser disparada com munição de pólvora seca sem projéctil. Se tivesse tido o impulso de disparar, a granada explodiria mesmo na ponta da G3, matando-nos a todos que estava-mos muito juntos.
(5) O meu abrigo era o que vês ao centro da fotografia, noutra oportunidade explico-te de que eram construídos.

Obs. Foto capturada da Net. Fica aqui o meu agradecimento ao autor.

8 de outubro de 2011

GUINÉ-BISSAU, DESTINO DE UMA EVASÃO

Guilherme, nesta madrugada excepcionalmente quente de Outubro, estive à janela como tantas outras vezes, deixando voar os pensamentos onde estás muitas vezes presente.
Mas, desta vez não estiveste nem próximo, porque eles andaram sobre a Guiné Bissau de que já te falei.


Eu sou o da esqd.  À porta de uma Tabanca. Sempre que podia andava à civil.

Na minha varanda e de janelas abertas, chega-me o cheiro intenso de mato queimado nesta madrugada.

Sinto-me olhando o vazio, como orbitando a Guiné Bissau nesta noite sem luar.
Vejo as pequenas fogueiras e o burburinho das vozes sentadas à entrada de cada tabanca.

A minha busca de uma delas no meio do labirinto das mesmas, o cheiro da sua palha rendado com outros cheiros, produz-me ânsia e ligeiro desnorte.

Com as estrelas da noite como testemunha e como guias, com a ténue luz das pequenas fogueiras..., procuro no burburinho das palavras de cada família as silabas que me permitam a comunicação. "Corpo de vô ?" "Manga de sibe" "Jametum" etç.

Beber um trago de álcool de cana, fraternalmente oferecida, concerteza com raivas contidas, e que eu não me sentia o destinatário..

Sentia-me honrado, pela hospitalidade, no meio de pessoas com rostos quase esbatidos pela escuridão.

E por vezes sem conta, procurando dar melodia de esperança a curtíssimos diálogos nunca concluídos, sobre algo que estava para além de mim, outros berros de outras bocas mortíferas, se escutavam de vinte, trinta, quarenta quilómetros de distância.

Minha farda se transformava no pano de fundo de cena, e toda a empatia se desvanecia na plateia à porta da tabanca.

Nossas bocas fechavam-se e só os olhares dialogavam interrogando o culpado.

Contudo, a cada noite nascia o dia com a alegria sofredora das gentes no cultivo, na bolanha, nos afazeres da tabanca ou simplesmente embelezando ainda mais frondosas florestas.

E eu, eu frequentemente voltava a renascer na esperança de encontrar esse trilho, para o qual não tive tempo de o percorrer, para alcançar uma floresta de onde se partia novamente em direcção a um palco onde decorria a peça da luta pela liberdade e independência.

Gosto muito de ti, Guiné Bissau.


Carlos Filipe, Out. 2011

15 de setembro de 2011

CUIDADO COM A FOTO

Meu neto, esta foto foi obtida num comício da Oposição Democrática no Porto, ainda no período da ditadura fascista em Portugal, fins dos anos 60s.
Porque me achei "bonito" enviei para minha Mãe, que na época estava a trabalhar em Inglaterra.

Os "motivos vários" eram para proteger as outras pessoas presentes na foto da policia politica portuguesa PIDE, caso eu perdesse o controle da foto.

11 de setembro de 2011

" MG " UM SONHO DE JOVEM

Creio que este foi um dos meus maiores sonhos, quando em muito jovem gostava de ter um carro.
Na época, ficava com inveja quando via algum dos filhos de famílias ricas a conduzir um carro destes.
Sendo que a marca MG, ficou-me vincada na memória porque um tio meu, da facção mais privilegiada da minha família teve alguns, embora não desportivos. E um deles acompanhei a sua completa desmontagem e reconstrução, porque pretendia modificar algo no automóvel.

23 de maio de 2011

23 de MAIO, MEU DIA DE TODOS OS DIAS.

Já passam quatro anos, que decidiste sem outra alternativa, encetar uma viagem, para a qual não me convidaste.
Só me deixaste o filme da nossa amizade, amor e companheirismo, além do rebento da tua (nossa) filha. O Guilherme Filipe.
Todos os teus amigos(as) que eu conheci te admiravam. Tambem por isso foste o meu orgulho.

( Últimas palavras escritas, que a avó recebeu da enfermeira Dora )



-23 Maio de 2007-

6 de maio de 2011

VESTIGIO

Numa época em que ainda estávamos a aprender a viver como um casal, com tudo que isso implicava e eu pessoalmente a aprender a ser pai de uma menina com três anos.
Tudo era uma preocupação para mim o que fazer e de que maneira, porque estavas muito fragilizada, mas ao mesmo tempo com muita determinação de manteres as forças para seres capaz de conseguires cumprir as tuas obrigações de mãe e agora de companheira sem precisares de terceiros.
Digamos que tínhamos acabado de sair da adolescência com um rol de supresas em contacto com a realidade da vida, e aquele traço da tua personalidade causava-me admiração com um misto de vaidade e orgulho, por poder ser teu companheiro.
Na verdade, no meu fundo, não sei se também não me sentia protegido, porque de facto tinhas já uma experiência com os percalços da vida real




18 de abril de 2011

( III ) - SONHOS, VENTURAS E OUTROS QUE TAIS

Conforme os editais, apresento-me na unidade militar respectiva no Porto, para a Inspecção Militar.
Um amontoado de jovens dispersos pelos passeios, com semblantes de uma boa disposição, que em muitos casos era uma forma de disfarçar a ansiedade, o desconhecimento do que vinha, a aflição de deixar os empregos, o sustento dos filhos e/ou família em alguns casos.
Uns tantos, acompanhados de seus pais com ares de quem vai para o matadouro, outros porém com todo o estilo de filhos de "família bem", que pareciam dizer; venho trazer meu filho para os elevados desígnios da Pátria. Circulavam no meio destes jovens alguns adultos visivelmente alguns pais, e outros estranhos adultos aparentando jovialidade, mas demasiado velhos para a condição de Mancebos... tratava-se da policia política PIDE-DGS dispersa no meio dos presentes.
Aqueles jovens (maior parte) não sabiam que se tratava da policia política rondando. Felizmente para eles que as suas conversas eram circunstanciais (em amizades de ocasião) à volta das suas origens, empregos, destinos, namoradas, e pouco mais.
No interior da Unidade Militar, de forma mais ou menos organizada enfileiravam-se os Mancebos para a respectiva inspecção física, sendo a principal preocupação dos examinadores, se o jovem tinha sífilis ou era homossexual, durante um breve inquérito sobre o seu estado físico se era cocho ou maneta, mas não sobre o seu estado saúde.
Soldados já fardados, (os prontos) com seus "ares de sargentos" a imporem a disciplina, procuravam manter a integridade das filas em direcção às mesas estrategicamente colocadas, onde estavam médicos (ou alguns supostos) com semblantes quase impenetráveis, sem grandes conversas, como militares alemães que seleccionavam homens aptos ou não para os trabalhos forçados.
Coisa que não me impressionou, porque com dezasseis ou dezassete anos, fui convocado (acompanhado de minha mãe) para ser interrogado pela Policia de Investigação Militar, no Porto. Assunto; acompanhar frequentemente um africano de Angola que estava (ainda hoje estou para compreender com quem estava a tentar solidarizar-me, eu era jovem demais) "protegido" no centro de transmissões STM no Castelo da Foz. Este meu convívio com o africano que algumas vezes comeu em minha casa originou suspeitas. Também não sei se sobre mim ou o africano. Eu era conhecido dos militares e do Sargento do posto de transmissões, desde criança. Convivia com eles e aprendia coisas sobre radiocomunicações, andava à vontade pelo Castelo que servia de quartel, comia com os soldados etç. Isto daria outra história, talvez um dia.
Mas voltando à inspecção militar.
À saída das instalações de inspecção, os recentes futuros recrutas confraternizavam, nos cafés das redondezas e especulavam sobre os seus possíveis destinos para o inicio da recruta. Desconheciam que a "distribuição" dos homens pelas diversas unidades no território (tal como o destino a África) obedecia a um plano entre outros baseado no nível cultural, das características sociais das regiões de onde eram oriundos, até incluindo o clima de Norte ou Sul de Portugal. Os madeirenses e os açorianos foram o exemplo mais claro desta filosofia sócio-militar.
Contudo, continua a colocar-se a questão: para onde ir.


Foi também nestes momentos de descompressão, depois de vãs tentativas de exporem à inspecção algum impedimento para ser militar, que alguns tomaram sem retorno a decisão de fugir à tropa, emigrando a "salto". Sendo que a principal razão para além das questões políticas, era ser colocado em muitos casos em causa a sobrevivência da família, filhos, e todo o rol de questões que se apresentam a um homem quando é deslocado à força.


Por minha parte, senti que aquelas duas horas, talvez me tenham transformado em um "bicho subterrâneo", disposto a tudo, decididamente não tinha alternativas concretas e viáveis de imediato. A minha postura passaria a ser de "dócil" cidadão. Tratava-se agora de aguardar a convocatória para o inicio da recruta (re)organizar a minha vida e o meu ‘modus operandi’ face ao que já me tinha proposto; combater o fascismo no seu seio, e agora "carimbado" com o determinante e insuspeito "apto para todo o serviço militar”.

(fotos do período decisivo)

15 de abril de 2011

A MÁQUINA


É por estes anos que o teu trabalho de ministrar formação de informática se intensifica, estou sentado no mesmo "escritório" com vista para a rua, onde tantas horas passaste com a responsabilidade da preparação do teu trabalho para cada dia seguinte. Começavas a dar formação a quadros superiores de empresas e eu inadvertidamente queria provocar pausas no teu trabalho em serões pela noite dentro, e tu não mo permitias.
Se valeu a pena profissionalmente para ti ou para nós, hoje perante o fim da nossa caminhada, choro de alguma forma o tempo que te foi roubado.

A única alternativa, era brincar com o tipo de trabalho. Desculpa as vezes que fui importuno, só via o teu esforço e não os teu receios de enfrentar os touros.

14 de abril de 2011

NATAL IMPREVISIVEL

Trabalhava eu por turnos na Radio, e nessa noite a minha saída era às 02:00h da manhã, apanhava o último comboio às 02:30 e chegaria a casa às 03 horas.
Tu tinhas ido trabalhar, embora tivesses saído mais cedo. Foste buscar a menina ao colégio e deves ter começado a tratar dos preparativos para uma noite de Natal a três.
Ora o previsto era que próximo das duas começarias a cozinhar o bacalhau, batatas, couves, o habitual desta noite... A menina estaria a dormir e acordaria, conforme a sua vontade para confraternizar e abrir as suas prendas.
Respeitava-mos muito os horários da criança, mesmo abdicando de alguns prazeres para nós.
Não havia telemóveis neste tempo.
Algum frio da época e uma viagem de comboio com muito poucos passageiros algo "tristes", mas eu ansioso de chegar, porque sabia que ia ter como sempre uma maravilhosa companheira à minha espera para uma noite de carinho, como tantas outras mesmo quando não era natal; ia pensando nas cores dos embrulhos para haver uma distribuição equitativa com a nossa filha pequenina.
Abro a porta, e vens ao meu encontro com o ar mais triste deste mundo, afogada num desânimo que parecia que não teres força para estar em pé.
Mais tarde compreendi que este desânimo deveu-se ao facto de saberes que o Natal para mim era a festa do ano mais importante, não por eu ser ou não ser católico, mas porque tinha sido o meu ninho de sonhos em criança esperando pelas prendas que nunca vieram.
Céus... com uma quantidade suficiente de guloseimas, as frutas secas, bolo-rei, havia pão, marmelada, nozes, pinhões ou seja de tudo um bocadinho, nem que fosse só para desogar... porque havia-mos de ficar assim tristes?
O que aconteceu ?!... Estava combinado que próximo das duas começarias a cozinhar, para quando eu chegasse estar quase pronto. Mas fatalidade das fatalidades o Gás de garrafa acabou-se...
Se calhar tinha mesmo que ser assim, porque ficou a ser um Natal com "sabor" diferente e durante anos foi acontecimento de referência nas nossas conversas natalícias. Creio que consideravas que me ia sentir talvez muito afectado.
Então acordamos que tinham que ser quebrados todos os nossos rituais, senão a coisa não ficava bem.
Primeira decisão; vamos comer no chão.
Segunda como o bacalhau estava quase cozido (o gás podia durar mais um bocadinho..) vamos fazer esfiado com azeite e cebola. E o resto prossegue normalmente.
Claro que no meio disto a menina já tinha acordado, teve manifestações de espanto por ver comida no chão em cima da toalha que anteriormente tinha visto na mesa; e a situação ia ficando complicada porque a criança não se apercebia que não podia andar em linha recta, devido à falta de um "generoso" espaço porque estávamos num apartamento J.Pimenta.
Acesas as velas, nós aconchegando o estômago com o singular bacalhau, a criança "petiscando" as doçarias lá fomos criando a nossa noite de Natal, a mulherzinha recuperando do seu desgosto, culminando num rir de felicidade pela forma como as coisas decorriam.
Alegria que aumentou com a distribuição das prendas entre os três, que se prolongava sempre, porque havia necessidade de dar oportunidade aos afectos e à apreciação das coisas neste caso principalmente dos brinquedos.
Até que que a criança foi viajar nos seu sonhos e nós... nós fumamos mais alguns cigarros, mais um copo de qualquer coisa e mais um copo de sumo, talvez mais uns pinhões, o volume do som da  televisão muito baixinho. Concluímos que tudo tinha sido bom e diferente porque nos amava-mos.
E neste Natal, cada um de nós foi tudo o que o outro quisesse que fosse.
Até breve amor.

Ps. A menina é a tua mãe...Guilherme

 

12 de abril de 2011

CULTURA E PROTECÇÃO



Decorria a Feira do Livro, na Avª da Liberdade. Ainda estava sedento de ler e conhecer o que havia de novo que tivesse sido publicado durante a minha permanência na Guiné.
Fora das horas do trabalho na Rádio e como estava hospedado muito perto, numa pensão na Pçª dos Restauradores a feira era o meu local preferido.
Estava uma tarde bonita de sol, creio que era um sábado ou domingo, havia muita gente.
Gostava de ter outra tarde igual... livre da guerra, da opressão, com alegria, recém-independente economicamente, e o tipo de trabalho de que sempre gostei.
Tinha ainda os reflexos da Guiné com a minha estadia hospitalar. Mas nessa tarde no meio da minha busca de novos livros, todos os resquícios do passado, todas as ansiedades do meu inicio de vida como jovem homem se evaporavam.
Durante estes anos me interroguei algumas vezes, se foste tu ou a criança, que era a tua filha que "apelaram" a todo o amor que eu tinha para dar um dia a alguém.
Recordo quando na Feira do Livro, eu ia a descer a Avª no passeio interior do lado dos automóveis e o meu olhar capta de repente uma menina pequenina a caminhar muito ligeira, também pelo passeio abaixo. Observo-a e de repente no meu entender ela estava aproximar-se muito do limite do passeio e corri para ela para a deter. Olhei para os lados para ver quem estaria com a criança e tu estavas mesmo ali ao meu lado, mesmo juntinha a mim.
Creio que me senti acabrunhado. Afinal... havia alguém tão atento ou mais que eu. Porém não tinha reparado em ti, a Mãe estava presente.
Lembro-me de ter oferecido à menina algo da feira, que não me recordo.
Não sei exactamente do que conversamos (talvez da revolução e livros) e caminhamos juntos o resto do percurso com a Susaninha no nosso meio até aos Restauradores onde nos separamos. Tu foste para o comboio e eu para a Rua Capêlo, para a Radio.
Quem eras tu ?! Só fiquei sabendo que trabalhavas numa Editora, tinhas uma filha com três aninhos, residias na linha de Sintra, e deixaste-me a impressão seres de "esquerda" e... mais nada.
Por minha vez não te terei dado muitos elementos, pela "complexidade" do meu percurso de vida, que afinal era tão complexo como a teu, não o sabendo nós nesta altura. Ficaste com o essencial de mim, não te disse muita coisa, quanto mais não fosse porque olhava para ti e eras uma jovem bonita que me dava o impulso de atrair a tua atenção, mas ao mesmo tempo olhava para a Susaninha e já te via como uma mulher mais madura com outras responsabilidades.
Foste, o MEU ENCONTRO COM O AMOR que me acompanhou sempre em todos os momentos bons e maus.
Quando eu estava a começar a "estrada da vida" como adulto, inspiraste-me respeito mesmo na tua simpatia, digamos que este casual encontro contigo me provocou receio de tentar sequer namoriscar além de não deixar de pensar na menina e em ti como uma só pessoa.
Ficou combinado nas despedidas que me contactarias. Sabias o meu nome e o número da rádio, era fácil.
Até breve meu amor.

11 de abril de 2011

( II ) - SONHOS, VENTURAS E OUTROS QUE TAIS

Vinte anos de idade (1970), aproximam-se os dias da decisão que terei de tomar. Ou seja os dias da Inspecção Militar.
Vou reforçando a minha própria segurança, destruindo ou facultando a outros, material em minha posse, como documentos, recortes, livros, mais comprometedores.
Deixo os lugares mais recatados e começo episodicamente a conviver mais "brejeiramente".
Procuro conhecer as de-marches da realização de uma inspecção militar, sobre a ida para um quartel.
Fico a conhecer mais detalhadamente, casos de vários estudantes universitários obrigados a interromperem os estudos para ingressar nos contingentes para as colónias, o que me desperta o desejo de estar junto a eles. Mas tratava-se de um imaginário meu, não sabia como.


Começam as conversas com algum grau de risco, com os amigos mais íntimos, no fundo procurava o suporte à decisão, (que não foi a final), que eu naquele momento desejava tomar.
A deserção. Para além das opções políticas, outros factores se me apresentam e influenciam.
O afastamento das pessoas que eu mais amava na vida, minha Avó e minha Mãe. Sendo verdade, que na altura e recentemente, minha Mãe tinha-me dado a conhecer o carácter colonialista e escravizador daquele que foi meu pai, durante muitos anos em Moçambique na ex-Lourenço Marques, pai que não cheguei a conhecer e sendo a causa da separação do casal.
Com a deserção implicava consequentemente o apelo à minha coragem com destino ao desconhecido e em absoluto ainda insensorial.
Renovam-se conversas com amigos íntimos e mais "seguros" (um não implica o outro tipo de personalidade) que ganham novos contornos e outras abordagens. Diversas novas condições e objectivos se me apresentam entretanto com a consciência política adquirida até aquele momento, durante a juventude, em substituição do futebol e da abstracção política e social que a maioria dos jovens padeciam, face ao fascismo existente, mas que lentamente a juventude começava a despertar da letargia.
As alternativas naquele momento eram:
Deserção pura e simples.
Ou frequência da recruta e depois desertar, com o objectivo de adquirir instrução e conhecimentos militares, com vista a vir a integrar grupos de acção revolucionária.
E ainda, enquanto não embarcasse, obter informações, produzir agitação política, nos quartéis.
A minha opção final e pessoal (mais uma vez neste campo) foi que ingressaria as fileiras e embarcaria para as colónias, se mobilizado, onde levaria à prática o que me fosse possível.
Tendo-me atribuído, independentemente dos riscos que acarretava e como primeiro empenho, dar a conhecer para o exterior todos os factos e movimentos de relevo do interior dos quartéis, incluindo cópias ou transcrições e na medida do possível outros materiais. Que veio a ser inicialmente em RI7 na cidade de Leiria, unidade onde fiz a recruta.
E no caso de embarcar para as colónias (que veio a ser para a Guiné), procurar contactos com a população afecta aos movimentos de libertação e dar a conhecer as lutas que se travavam em Portugal contra a guerra colonial e a ditadura. Facultar o conhecimento sobre o exército colonial, e informando para Portugal do que tinha conhecimento no aspecto político-militar e outros.
Não obstante todos os medos, todas as angustias, creio ter concretizado grande parte dos objectivos a que me tinha proposto. Concluo eu hoje, até ao meu último dia de hospital militar.
p.s. Nunca utilizei nenhuma informação de operacionalidade pontual, que pusesse em perigo qualquer militar, fosse ele quem fosse.

(continua)

( I ) - SONHOS, VENTURAS E OUTROS QUE TAIS

Uma adolescência "privilegiada" em relação à generalidade da juventude, no afecto familiar que era o amor de minha Avó e de minha Mãe, com a protecção e compreensão dos caminhos que eu trilhava até a pouco depois do 25 Abril, altura posterior que em datas diferentes, também elas iniciaram outro caminho dito eterno.


Somente já adulto, compreendi quanto as sujeitei a grandes sustos e ansiedades, mesmo até duas ou três semanas antes desta data, estando eu felizmente a trezentos quilómetros de distância na R. Renascença em Lisboa. Privilegiado no acesso à cultura, na experiência do contacto com diversas camadas sociais da população que me rodeava. Para quem conhece a Foz do Douro, no Porto, era entre pescadores, marinheiros, operários fabris e a zona aristocrática da burguesia de banqueiros, grandes industriais etç.

                                           (sou o do meio com uma Rola)

Escrever sobre estes pormenores seria muito extenso e não é objectivo agora.
Neste percurso de adolescência até aos dezoito anos sempre me foram transmitidos os valores de meu Avô materno. Marinheiro de coragem e participante em revoltas, e quando em terra, hostil às injustiças. Morreu no mar, sob a bandeira inglesa, quando num "comboio de reabastecimento" seu barco foi bombardeado por um submarino alemão.
Aos dezoito anos (1968), eu estava empenhado em todos os meios culturais ao meu alcance (poucos e perigosamente criados) e que me eram disponíveis.
As longas conversas tidas em não menos longas caminhadas pela marginal junto ao mar, na Foz , até meio das madrugadas, forma de não ser-mos escutados, ajudava-nos a desenvolver as nossas concepções, a nossa forma de ver o mundo, e levar à prática formas de luta e resistência, ao que nos oprimia a cada dia.
A exploração, a guerra e a falta de liberdade.
Nos cafés mais "seguros", na casa de amigos, onde ouvia-mos música mesmo a editada clandestinamente, "filosofava-se" e lia-mos tudo que chegava às nossas mãos, trocava-mos os livros e papeis proibidos e raros que nos chegavam.
Em alguns locais policopiavam-se outros.


Nos finais deste período, a minha integração nas já existentes e criação de novas "comissões culturais" em colectividades, cooperativas e até filarmónicas, tinha como objectivo, promover hábitos de leitura com outra imprensa como Diário de Lisboa, República, Comércio do Funchal, promover troca de impressões sobre os acontecimentos mais ou menos públicos, realizar colóquios com Óscar Lopes , Armando Bacelar, Armando de Castro e outros intelectuais, sobre economia e política mais abrangente. Com músicos de Jazz. Realização de momentos com música (as baladas da época) e peças de teatro como a Guernica de Brecht, que sonorizei. Claro tudo isto sob os olhares da Pide-DGS, que esperava avidamente a presença de "caça grossa" nesses locais.
Com este plafon, chego à condição de Mancebo, nobre designação de carne para canhão.
Novas e mais importantes (individualmente) opções se me colocam.
Desde a deserção, até à permanência nas fileiras. Opções que por muito individuais que fossem, só poderiam ser levadas a cabo, enquadradas e/ou organizadas, face à minha maneira de estar na luta e concepções políticas, Leninista com influencias de Che Guevara, Mariguela e outros da luta revolucionária activa.

(Continua)

1 de abril de 2011

RECORDAÇÃO EM MOVIMENTO

Foi no passado Domingo, quando a meio da tarde resolvi dar uma volta. À saída da porta inconscientemente e sem qualquer destino programado, vejo-me a caminho das Portas de Benfica, para onde já não ia-mos há uma meia dúzia de anos. Fazia parte dos nossos passeios, este percurso de ida e volta.
Alguns dos mesmos estabelecimentos comerciais, um restaurante rasca que pagamos e deixamos quase tudo na mesa, a farmácia à qual algumas vezes, já fora de horas, ia buscar medicamentos para a Susana e tu ficavas muito preocupada.
O café Scala mesmo junto às "portas" onde bebíamos um café para recuperar energias e voltar-mos para trás, e regressando a casa fazia-mos uma pequena incursão pelo super-mercado para adquirir alguma coisa quando necessário ou simplesmente para ver.
O centro de saúde aonde fomos com a miúda algumas vezes.
Recordei tudo isto e principalmente as nossos diálogos, fantasiando sonhos, acalentando esperanças de melhores dias, à frente das vitrinas de algumas lojas.
As nossas conversas e preocupações durante o passeio sobre o desenvolver da Susana, já rapariguinha.
Gostei desta "viagem" com coisas que já não recordava-mos à muito tempo. Foi bom caminhar sobre sonhos.
Porque foi maravilhoso viver em tua companhia.

5 de março de 2011

POSTAL DA DÉCADA DE 70

                                    

MÚSICA E POESIA





Quando comecei a mudar-me para o teu apartamento depois de algumas "certezas" de que era o que queríamos, levei os poucos livros que tinha trazido do Porto mais alguns que adquirira por aqui, alguma propaganda que ainda estava em meu poder porque se tinha dado 25 Abril e muito pouco mais nesta área, umas K7 e alguns discos, era o meu "tesouro cultural" na ocasião.
Como é normal, íamos vendo e comentando o que cada um de nós possuía, começamos a organizar papeis, fotografias, livros, pequenas recordações e outros. Porque ainda estava num período de mudanças do meu quarto para para tua casa, mais o emprego, as coisa tinham que ir devagar.
Tão devagar, que não hesitaste em dar-me para ler, um livro de poesia que eu já tinha lido clandestinamente, antes de ir para a Guiné. Essa sugestão de leitura, considerei-a como uma confissão ou uma mensagem... e não recusei. Mais tarde este livro que estava assinado, passou a ter o número 245 na nossa biblioteca.

"A INVENÇÃO DO AMOR" de Daniel Filipe

     

Tempos depois pensando eu, que sabia muito sobre o colonialismo dás-me outro poema que não conhecia de todo para ler; "Os Flagelados do Vento Leste" de Manuel Lopes.
Fico entretanto a saber de alguma da música que gostavas. No meio de diversas canções, baladas e outras músicas, havia uma ou duas obras clássicas: "As quatro Estações" de Vivaldi e a "Sinfonia do Novo Mundo" de Dvorak.
A minha primeira "preocupação" que tive de resolver com a maior satisfação do mundo. Não havia Gira-Discos, mas consegui arranjar um do tipo portátil e baratinho. E ainda à volta da música, passado talvez dois anos, ficaste muito zangada comigo por ter oferecido um duplo álbum dos Beatles a alguém, só porque eu desconsiderava a música deles. E passado long time ainda falavas disto.

Querida porque nos últimos tempos só pensava em ter-te junto de mim por mais tempo, contra o próprio tempo, não soube dar-te novamente este pequeno prazer, será que desejavas ?.


14 de fevereiro de 2011

PRAIA PESCA E COMPANHIA

Não conhecia o litoral de Lisboa (praias) só conhecia a de PaçoDÁrcos de quando lá estive na Esc. Militar antes de ir para a Guiné.
Começaste por me convidar para irmos para a de S. João e depois mais outras, acabando por fazer umas idas até à Cova do Vapor na Trafaria.
O que se tornou numa peregrinação por dois motivos: primeiro tinha uma praia onde a Susaninha podia andar à vontade, sem ondas e sem fundões, aliás aonde aprendeu a nadar. O segundo motivo porque os esporões da Costa eram óptimos pesqueiros, que eu desconhecia e aquilo com que eu fui criado e também no meio de barcos, veio-me à flor-da-pele.
E tu encorajaste-me a comprar material de pesca.

Brincava com a menina um tempo generoso e às vezes lá ia eu para a pesca um pouco afastado do local e esperavas por mim ou eu vinha ter com vocês.
Também aqui, como sempre, foste amorosa. Quantas vezes quando o vento já estava a arrefecer o tempo, embrulhadas nas toalhas e protegidas nalgum sitio esperavas por mim, enquanto eu satisfazia o meu egoísmo. Felizmente que por sorte ou por saber sempre pesquei Robalo e Sargos.
Mas também percebi que para ti, que adoravas peixe grelhado, era óptimo. Além de nos convir economicamente pela quantidade. Chegados a casa eu tratava do peixe para o guardar etç, simultaneamente tu ias para o banho com a menina, e depois ia eu enquanto começavas a fazer o jantar.

Após a refeição, ia-mos dar a nossa voltinha ao quarteirão e quantas vezes com a Susaninha aos meus ombros ou os nossos lentos passeios atrás de uma criança de triciclo.
Chegados deitava-se a criança, tratava-se da cozinha ou melhor, a quichenete.
E finalmente saboreava-mos a noite de um dia de verão, colmatando a ânsia do dia se acabar.

Obrigado pelos teus lanches, pelas tuas esperas nos fins de tarde de Verão.

10 de fevereiro de 2011

VISITA AOS NOSSOS AMIGOS AQUÁTICOS


Do nosso passeio ao Aquário Vasco da Gama, em Fev. de 2011.
Conversamos muito, não foi ? No dia que tambem de ofereci um livro e na dedicatória que escrevi, datei com o ano de 2012, e tu perguntaste-me se eu estava tolo.
Eu tive que admitir que sim e completei a mesma, com essa tua apreciação do facto.

29 de janeiro de 2011

PARA QUÊ UM TITULO

Agora que voltei aqui, interrogo-me o que reinava no teu cérebro aquando da opção que tomaste, de enviar um cartão com as minhas flores.


Este ao estilo da época continha referências pessoais, algumas foram anuladas por ti. Interessante...


Residência foi traçada com a caneta, que omiti na imagem porque era legível. Até aqui normal porque já não residias naquele endereço.


Traçar a tua condição de estudante, também foi óbvio, já não eras.


Mas minha menina!.. a incompreensão foi sobre o teres riscado no cartão, um dos teus apelidos, o nome Coelho.


Se te questionei sobre isto não me lembro, este pormenor não recordo; salvo o esclarecimento de para quem de facto se destinavam as flores que enviaste.


Sendo que no meu apelido também tenho o nome Coelho, era uma engraçada coincidência para ser riscada.


Será que fez parte também da tua prudência sobre e como, a quem se destinavam as flores?


Mas porquê amiga ?!

DEPOIS DE UM ENCONTRO

Foram dez ou quinze dias de ansiedade, porque havendo tanta mulher a telefonar para a Rádio por razões várias como; a radio novela "Simplesmente Maria", os Discos Pedidos, os namoricos com a malta, éramos umas vedetas!... Somente tu é que não telefonavas como tinha ficado levemente insinuado quando nos conhecemos.
Eu bem avisava os colegas telefonistas que estava à espera da chamada de uma pessoa com o teu nome e a minha ânsia era tanta, que às vezes infantilmente pensava que me estavam a esconder o teu possível telefonema.
Com um misto de vaidade (abunda entre os homens em grupo) felicidade, desejo de te ver outra vez, lá fui contando o meu "encontro com o amor" a alguns colegas que como é hábito teceram comentários descabidos do que eu estava a sentir, ninguém estava a perceber.
E então o diálogo tornava-se de surdos e jocoso, sem valor, que não me ajudava em nada, mais a par de estúpidos "avisos".
Finalmente um dia telefonaste, foi uma conversa curta, a perguntares-me como estava, aquelas frases de quem não sabe por onde começar...e eu também não sabia. Na despedida disse-te que ia passar uma música para ti dum grupo chileno (pedi ao Luís Filipe Martins locutor, para passar uma faixa, não me lembro qual, do grupo Atualpa).
Não sei se fiquei melhor ou pior depois do telefonema.
Após a saída de turno da rádio e com mais sossego, percebi que estava com uma luzinha lá distante que se aproximaria ou não conforme tu o desejasses. Para mim não deixavas de ser "duas pessoas" e isso induzia-me um sentimento de respeito, receio (?).
Passado algum tempo, mais uns largos dias, sem saber se devia manter a esperança de que algo acontecesse, cheguei à radio para o turno da tarde, como sempre cheia de reboliço devido à situação revolucionária que se vivia. Era um barafunda de técnica, noticiários, entrevistas, reportagens essas coisas todas que depois vieste a conhecer por dentro.
Não me recordo como, fui informado que alguém tinha mandado entregar um Ramo de Flores, para três de nós, entre eles eu. Não era só para mim... e fui à sala dos Noticiários passado um bom tempo e de facto vejo um pequeno ramo de flores muito composto, com um pequenino envelope com três nomes, sendo que o nome do meio era o meu, Carlos Filipe e a seguir a respectivo endereço da RR.
Dentro, um "cartão de visita" de estudante com o seguinte texto:
"Amigos. Quando estou triste, gosto muito de oferecer flores. Um abraço para vocês. Adélia"
Lembras-te destes conteúdos ?. Pois... foi muito bonito, mas também foi como se me tivesses dado com uma marreta na cabeça.
Então eu é que te conhecia, eu é que gostava de ti, eu é que fiquei de ser contactado, e mandas flores para três pessoas.
Pensei muito, mas não compreendia, não podia ser que não tivesses reparado que te fiquei com afecto desde aquela tarde na Feira do Livro.
Mesmo depois de já viver-mos juntos, só passados alguns meses é que me explicaste a razão daquela opção dos três nomes.
Era que não conhecendo de todo a minha posição na rádio nem os meus relacionamentos, tiveste prudência para não causar-me algum problema, mas que as flores eram mesmo para mim.
E de facto durante estes anos sempre conheci em ti essa prudência e sensatez, perante os acontecimentos importantes das nossas vidas.
Desculpa não ter compreendido o "código" da tua missiva.

EU POSSUIA E TU GUARDAVAS...


Antes de ir para a Guiné possuía no meu quarto em 1971, um poster igual a uma das tuas recordações que me ofereceste no inicio da nossa amizade. Este postal com uma data em letra pequenina Maio72



FLORES


Desde sempre, sabia que gostavas de flores e elas foram a minha "arma secreta".
Nos nossos primeiros tempos, às vezes comprava-te uma flor, gesto que fui perdendo com o decorrer do tempo.


E um dia disseste qualquer coisa como, "nunca mais me ofereceste uma flor" e a partir daí até não deixei de te dar uma flor no meu regresso a casa. Sempre que me cruzava com algum muro com rosas ou outra flor a sobressair ou um canteiro acessível, eu sempre colhia uma flor para ti. De cada vez que entrava em casa com uma na mão, recebia-la como se fosse das primeiras vezes e mesmo antes de me beijares já estavas invariavelmente a cortar o caule e a colocar numa fina jarra com água. Sabia que gostavas de Jarros, mas dificilmente encontrava e só à poucos anos quando estivemos algum tempo na zona de Sintra, consegui satisfazer-te com Jarros.
Clima propicio para esta planta, era fácil encontrar em qualquer pequeno canteiro público e eu trazia para teu prazer e também preocupação porque algum condomínio desses canteiros podia manifestar-se. Mas eu não me preocupava porque era por amor e não por destruição como frequentemente observava. Sempre gostei de ver, embora não desse a atenção devida, a tua estratégia de teres plantas em nossa casa, que não se propiciava nada para o cultivo delas. Era engraçado o teu estratagema, utilizavas plantas que se desenvolviam e multiplicavam em água e daí que tu distribuías por vários recipientes parecendo um pequenino jardim. Creio que a flor foi como que o nosso ícone, nunca perdi a oportunidade de te dar uma por qualquer meio e vou continuar a dar-te até deixar de ser possível.

(anos 80)

28 de janeiro de 2011

O BARCO (modêlo) Jan 2011

Entendeste que este barco, seria uma boa prenda de Natal, e ofereceste-mo.
Comecei agora a construí-lo. Espero finalizá-lo em breve. Prepara-te que não vai servir para andar na água, a não ser que eu lhe consiga dar um bom isolamento, assim o espero.
Por outro lado vou tentar  fazê-lo mais parecido com a Traineira portuguesa, será só excluir um pormenor ou outro. A ver vamos, o que se pode fazer...
Obrigado meu Neto.

26 de janeiro de 2011

FRASE DE AUTORIA DESCONHECIDA


Década de 70...

Este papel, deixaste propositadamente em cima dos nossos livros numa altura em que as "discussões" filosóficas e políticas, eram intensas entre nós e com os amigos. O mundo estava nas nossas mãos, o futuro abria-se para nós e para nossa filha.

"Os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o reflectir.
O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas principalmente, nas ideias próprias que se geram dos conhecimentos absorvidos mediante a transmutação por que passa no espírito que os assimila. Um sabedor não é um armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas."

REFLEXOS DE UMA REVOLUÇÃO

Fui um dos trabalhadores (hoje chamados de profissionais) da Rádio, da qual ainda até hoje não li a verdadeira história descrita com fidelidade, nem tão pouco as condições em que foi transmitida a segunda senha, a “Grândola Vila Morena”.
Disse-te na altura que aquilo não era uma revolução, mas sim um golpe militar anti-guerra colonial. Tinha regressado da Guiné à pouco tempo e lá tinha ouvido alguns discursos do Spínola.
De facto a Rádio Renascença era forte na mobilização dos trabalhadores. Mas estava infestada de todos os tipos de oportunistas de última hora, falsos progressistas, e os controleiros partidários.
Se acompanharmos o percurso de vida dos trabalhadores da emissora que se assumiam como tal de uma forma sincera, verifica-se agora que poucos progressos tiveram nas suas carreiras...mas os outros, hoje são vedetas na comunicação social.
Os acontecimentos que me obrigava a lutas "surdas" com alguns colegas, a situação da Emissora em auto-gestão, mais o desejo de viver os acontecimentos das mudanças, produziam em mim um stress enorme, como hoje se diz.
Também aqui foste a minha companheira e amiga, quando ocupamos o Centro Emissor da Buraca em Benfica, com o apoio da população e um acampamento montado à volta do edifício com trabalhadores ocupantes (alguns... porque outros já tinham desertado, mas apareceram com esse estatuto, depois de o Emissor ser destruído à bomba facilitando o concretizar do 25 de Novembro) a permanecerem lá as vinte e quatro horas.
Ias lá levar-me alguns lanches, roupa lavada e o teu carinho. Apesar das tuas tarefas, da atenção a dar à já nossa menina, e dos conflitos laborais que também já estavam a iniciar-se na empresa em que trabalhavas, com o abandono dos patrões.
Toda esta vivência de uma forma ou outra se reflectia nos nossos comportamentos, às vezes chegavam a confundir os nossos sentimentos. Lembras-te deste Bilhete ?!

Desculpa-me.

MEU NETO DE OIRO - 2010


Muito obrigado pelos sonhos que partilhamos.

NOVO ENCONTRO NA LUTA

Na R. Renascença já ocupada pelos trabalhadores, o meu trabalho era na assistência técnica às cabines e desde então participar (ou colaborar dependia do ponto de vista) em alguns trabalhos radiofónicos, biografias e ou histórias de luta revolucionárias, o trabalho de reportagem em termos técnicos não me atraia muito, porque de um modo geral o jornalista gostava de trabalhar em "auto-gestão politico-profissional" e os meios técnicos não exigiam tanto como isso.
Contudo fui eu que fiz a assistência técnica exterior em 16 Março, quando a Brigada do Reumático foi prestar vassalagem a Marcelo Caetano. E eu era o técnico que estava na radio na noite de 24/25 ficando com o Paulo Coelho, mas como sabes isto é outra história das histórias que foram contadas até agora.
Com o desenvolver dos acontecimentos a RR estava presente para reportagem, num leque muito grande de lutas de trabalhadores.
E a tua empresa não foi excepção, e não sei porque carga de água fui com o jornalista, creio que o Jorge Simões (passados 35 anos será que estou a cometer uma inconfidência?) e deparamo-nos frente a frente eu e tu. Estava reunida a comissão de trabalhadores. Vocês expuseram os vossos problemas e eu limitava-me a ouvir e a analisar. Disseram o que tinham a dizer, discordaram em pormenores e reparei que não te estavas a perceber, que naquela altura dos acontecimentos do 25 Abril, os trabalhadores deste país em roda livre nas suas lutas as alavancas partidárias procuravam a todo o custo tomar conta das mesmas lutas. Tive oportunidade com alguma antecipação de verificar isso graças ao lugar em que estava.
Dirigi-me a ti e começamos a falar sobre a situação presente no momento, creio que te alertei para uma ou outra situação patronal, que no vosso calor da discussão não te apercebeste.
Tinha gostado das tuas intervenções, mas no meu entender não eram para convencer ninguém em grupo porque te impediriam sistematicamente. Portanto terias de optar por outra estratégia.
Mas que afinal, fosse ela qual fosse ou de quem fosse, não resultaria da forma que o país se encontrava.
Afastamo-nos do burburinho, falamos também do nosso encontro na Feira do Livro, da nossas vidas, mais de mim desta vez, viemos cá fora beber um café e vim embora esboçando um possível encontro para irmos dar uma volta qualquer dia, ou a possibilidade de voltar a ir à tua empresa.
Mãe do Céu, era muito para mim, fiquei a gostar mais de ti porque vinhas ao encontro do meu então romantismo revolucionário (ou lirismo revolucionário até perceber que o 25A tinha sido um golpe militar e não uma revolução); o facto de estar sozinho em Lisboa e portanto ter de gerir muito bem a minha vida, já ter percebido que eras mãe solteira, a minha admiração por ti a aumentar, uma outra amizade entremeio, o meu interesse político pelos acontecimentos, era como uma hecatombe em cima de mim, e a pensar que concerteza deixaria de ir tantas vezes ao Porto. Tanta coisa para um jovem rapaz como eu.
Mas ao contrário do que eu pensava esta tormenta teve curta duração, porque passado uma semana ou pouco mais, convidaste-me para ir jantar a tua casa.
Eu disse que sim, deste-me pelo telefone todas as indicações para encontrar a casa e ficou combinado para um sábado em que eu fazia o turno da manhã.
Não imaginas como me senti tão pequenino, e tão honrado; ou vaidoso?, sei lá.
Entrei na rua pontualmente à hora que tinhas indicado, que aliás nunca tinha vindo para estes lados, olhava para os números das portas e para as janelas e vejo-te a parecer a uma delas sorridente, um terceiro andar dava perfeitamente para ver o teu sorriso e tive vontade de fugir, de tão inseguro que me sentia.
O dia estava bonito, era a meio da tarde e o sol ainda estava alto.
Subi e convidaste para entrar, depois de me acalmar ou de teres sido capaz de me dares alguma autoconfiança, mesmo assim penso que a Susaninha me ajudou bastante, porque tentando começar a brincar com ela disfarçou um pouco a minha condição, conversamos sobre coisas que não me recordo, conversamos pronto. A tua casa estava como se costuma dizer um brinco, tudo tão arrumadinho que eu quase não sabia aonde colocar os brinquedos da menina.
A tarde estava a passar-se e afloraste a necessidade de tratar do jantar (mal sabias tu Adélia que ias dar-me a primeira prova de fogo) interrogaste se eu gostava de frango assado ao que eu respondi que sim, mas com um nó na barriga. Desconhecias que vinha enjoado de tanto frango do hospital militar e da Guiné. Então lá fomos comprar um frango assado, batatas fritas, preferi cerveja ao vinho, mais sumo para ti e a Susaninha. Pelo caminho ainda fomos ao Parque infantil.
Já tínhamos posto a mesa e feito salada de tomate. Viemos rapidamente para casa e quando entramos a primeira pergunta que fiz, foi se tinhas pimenta para o frango, o que me iria salvar de eventuais enjoos.
Entre a refeição e um pequeno serão conversamos bastante, hoje creio que me escutaste mais do que falaste nesse dia, não que te viesses a revelar uma faladora, mas particularmente nesse dia, fiquei com a sensação que fui vistoriado até ao meu íntimo se tiveste possibilidade. Felizmente que a criança me dava alguns momentos de "folga". Estando com os brinquedos a brincar com ela no chão e tu estavas sentada num sofá muito baixo, diversas vezes estive muito junto de ti apetecendo-me pousar a minha cabeça no teu corpo e dizer que te amava.
O dia estava a acabar e já estava a exceder a hora de deitar a Susaninha, e eu a não saber exactamente como dever comportar-me. Não sabia se ficar, se me retirar, se esperar que tu me desses alguma indicação. E mais uma vez tive vontade de fugir.
Optei por fazer o que a minha educação e princípios me indicaram: não posso defraudar a confiança que esta mulher e mãe depositou em mim. E comecei a despedir-me.
Despedimo-nos com um beijo facial, que gostamos de conversar um com o outro, e até um dia destes. Incluindo a menina, não me recordo se tive o cuidado de levar algo para a ela, mas para ti lembro-me que levei uma flor.
Vocês vieram à janela, acenavas sempre que eu olhava para trás, o que fizeste quase sempre toda a nossa vivência. E lá fui para Lisboa para o meu quarto com um turbilhão de pensamentos.
Querida, não fiquei enjoado e foi-me muito agradável essa tarde de sábado que nunca esqueceremos.