23 de junho de 2008

RETRATOS DA MINHA INFÂNCIA - 1





Nasci num local lindo que se chama FOZ DO DOURO, como o próprio nome indica, o sitio em que o rio Douro se encontra com o Mar. Havia barcos de todos os tipos, campos, mato, fábricas, Pilotos, Marinheiros, Pescadores, Operários fabris, Lavadeiras e muitas outras actividades laborais.

Faz um canto a casa onde nasci, era da minha avó materna Amélia.

A porta de garagem era uma janela, o andar de cima era recuado.

O passeio vinha só até à árvore que nunca lá esteve. E na casa vizinha côr de rosa, a porta de garagem era uma loja de tecidos, linhas, material de pesca, e mais importante !!! brinquedos, que hoje só os verás no Museu do Brinquedo. Lá morava a Dª Esolina (?) avó do Zé Manel, que era da minha idade e com quem brincava à porta das nossas casas. E como os nossos quintais eram separados por um muro, podia ir para o quintal dele porque eu tinha uma janela da qual bastava dar um passo para a borda do muro e saltar. Mas ele não podia, porque do meu lado se caísse era muito alto. ah!ah!.

E pormenor muito interessante, um local que era exactamente a "fronteira" entre as pessoas pobres e as ricas que se chama CANTAREIRA. Mais à frente explico-te a origem do nome.

Rodeado de barcos de todos os tipos (na época). Barcos de pesca como as Traineiras, era vê-las da minha janela a sair a barra (Foz do rio) a meio da tarde para a faina da pesca à sardinha. Os barcos a remos dos pescadores que iam largar as suas redes pequenas ( os Quartos ) ao correr do cais da marginal desde os Pilotos até ao Cais Velho para a pesca da Solha e do Robalinho.

Mas também o bailado destes barcos no rio, e das Bateiras (barcos com a proa pontiaguda, parecidas com os moliceiros) à pesca do Sável, um peixe muito saboroso, que só se pesca no principio do ano.
Era um bailado quando subiam um pouco pelo rio acima, largavam as redes (Tresmalhos) e depois vinham a acompanhar a rede até à foz do rio ao sabor da corrente, aonde recolhiam a rede com o peixe antes de entrarem por mar dentro.
Era uma festa, quando havia muito peixe (tantas vezes...) as pessoas e as crianças juntavam-se nas Linguetas (rebançeiras da borda do cais até ao nível da água) e os rapazinhos incluindo eu andava-mos numa azáfama a ajudar a descarregar o peixe para os caixotes para depois as mulheres irem vender.
Mas também havia pessoas, mais ricas que iam até ao local para comprar o peixe directamente aos pescadores, e então o avô às vezes levava o peixe até aos automóveis desses senhores e ganhava 5 tostões que dava para comprar uns caramelos de açúcar ou um queque de amendoim.

Quando os pescadores mais velhotes, com quem convivíamos mais ou nos conheciam melhor, por vezes lá nos davam um Sável, então a minha mãe ou a minha avó, fritava e com arroz de ervilhas dava umas ricas e saborosas refeições.
Ai meu Menino há tantos anos que não saboreio Sável frito... e de escabeixe para o dia seguinte...

Já agora... o Sável é um peixe grande, enorme para um rapazinho, que vem desovar aos rios.

E as Traineiras, vê-las sair a barra, às vezes parava o meu coraçãozinho... vencendo aquelas vagas parecia que desapareciam atrás delas. Isto acontecia junto ao Farolim (farol da barra) e só ficava fora de tensão quando as via a navegarem já em águas mais serenas do mar ao largo da costa.

1 comentário:

Anamar disse...

Li, enternecida as memórias da infância, que pobre ou rica é um período da vida de todos nós, tradicionalmente feliz...
está associada a uma fase da vida de cor, despreocupação, alegria...em que não vislumbramos ainda a estrada que teremos que percorrer.
Que melhor legado poderia deixar ao seu neto, do que as suas próprias vivências, na forma de "estórias" contadas com carinho??!!
Gostei muito. Continue por favor!