18 de julho de 2008

A SOPA DA MINHA VIDA

Devia ter a tua idade de agora sete anos, talves não... porque não me lembro da escola quando aconteceram os factos que te vou contar. Tudo à volta de uma tigela de sopa.
Concluí nesta idade que não gostava de "Caldo Verde" embora me agradasse os legumes das mais variadas maneiras.
A minha Avó Amélia, fez desta sopa para o jantar e nesse dia decidi que não gostava dela (porque não me lembro de outros episódios com Caldo Verde) e a avó ia insististindo comigo para comer a sopa. Mas não estava disposto a colaborar por qualquer razão. E apesar dos meus apelos, a avó não desistia, mesmo com a minha mentira, protestando, de que a sopa era ou estava azeda.
Mas ela não desistia, embora o Caldo Verde possa azedar (estragar-se) com facilidade, não podia ser o caso, por ter sido acabada de fazer.
A avó Amélia decidiu sentar-se no banco (sim banco de madeira...porque dantes não havia cadeiras pela casa toda) e pegar em mim, pôs-me no seu colo e começou a dar-me algumas colheres de sopa.
A primeira, segunda, terceira, por aí fora, e eu gritando cada vez mais que a sopa estava azeda com toda a razão do mundo; a minha querida avó é que não tinha nenhuma razão para acreditar, embora nesse momento eu estivesse a dizer a verdade, verdadinha, e muito desesperado.
Finalmente, para descargo de consciência, a avó Amélia provou da minha sopa. Deve ter feito cara feia não me lembro, deve-me ter posto no chão e já não me deu mais para comer. Talves tenha dito que eu dizia a verdade.
Ela deve ter ido comparar com o sabor da que estava na panela e verificou que esta estava boa para para se comer.
Depois de um cházinho umas bolachinhas, uns vómitos à mistura a Dª Amélia começou a indagar o que teria acontecido naquela hora de jantar, numa casa grande, em que só estávamos nós os dois com uma tigela de sopa azeda.
Antes de te dar a conhecer o mistério, fica a sabendo que hoje em dia gosto muito de Caldo Verde e se for com Brôa, melhor ainda, aliás de todas as sopas, menos de Canja.
Não te esqueças que temos um acôrdo de que quando comesses tomate com alface, eu comeria um pratinho de canja. Foi o combinado.
O que aconteceu foi que o caldo verde estando talves apuradinho, entendi que estava "azedo" e com um açucareiro próximo de mim em cima da mesa, enquanto a avó estava de costas e a mandar-me comer eu coloquei algum açúcar dentro da sopa e claro azedou mesmo... o que me dava razão.
Passei umas vinte e quatro horas "doentinho" com muita tralha na cama para brincar e acabei por contar o segredo face à simpatia da senhora minha Avó.
COME SOPA GUILHERME, É IMPORTANTE PARA A TUA IDADE ADULTA.

17 de julho de 2008

A CRIANÇA E A RELIGIÃO


Neto, lembras do avô te falar muito de barcos, e pareceu-me que gostaste, porque foram muitas as viagens de barco no Rio Tejo que fizeste comigo, lembras-te?. Aliás nunca te faltava um barquinho na banheira, quando tomavas banho. Para finalmente possuíres um telecomandado que te dei, e que temos ido algumas vezes brincar com ele. Escrevo isto, para te relembrar que fui criado no meio de gente do mar; marinheiros e pescadores.

Também o meu Avô foi marinheiro, mas não o conheci porque ele morreu durante a II Grande Guerra a bordo de um Navio Inglês, que foi tropedeado por um submarino. Falar-te-ei sobre ele qualquer dia.


Perguntas o que tem isto a ver com religião e a criança?





Tem porque as pessoas ligadas ao mar são quase sempre muito crentes em Deus, Jesus, Maria.
Imagina estes quadros:
Um grupo de alguns homens à pesca só com os seus conhecimentos inerentes à sua faina, orientando-se pelas estrelas ou algum Farol em terra, sozinhos de noite no mar, com uma pequena luz dum candeeiro a petróleo e dento de uma pequena e frágil embarcação vencendo as ondas e as voltas repentinas de mar, e com ventos. É muita solidão para que um homem sózinho no meio da escuridão, no seu mais íntimo não apelar a qualquer coisa para além de si.

O outro quadro, um navio (naquele tempo: Vapor) no alto mar, sem as tecnologias que hoje existem como navegação por satélite, piloto automático e outras capacidades técnicas, navios de difícil manobra que não obedecem imediatamente por serem grandes, dias e dias de isolamento no mar, ás vezes vencendo tempestades com ondas enormíssimas que até parece que a proa (frente do barco) se vai enfiar pelo mar dentro.
E as mulheres destes homens?. As dos pescadores esperando pelos maridos, irmãos ou filhos na praia ou no cais esperando pelos barcos que se aproximassem de terra e muitas vezes como o avô também viu, afundarem-se quando estão a entrar a barra, depois de uma noite na faina da pesca. Eu vi já com a tua idade algumas Bateiras a afundarem carregadas com as redes molhadas, peixe, acessórios e três a cinco homens com fatos de oleado e botas altas a serem engolidos pelas águas, ou então serem arrastados pelas redes que se espalhavam.

2º esquerda 1º esquerda

Outras mulheres esperavam muitos e longos dias pelo regresso dos maridos embarcados no mar e naquele tempo com o medo da guerra. Os barcos grandes também encalhavam frequentemente próximo da costa, porque como disse não havia as tecnologias de agora, que nem se imaginavam na época.

Portanto todo este povo precisava de ter fé num Deus.

E foi assim o ambiente em que fui criado, com a minha avó; a minha mãe digamos que não era tão absorvida pela religiosidade, embora católica, era mais "terrena". Possuía a quarta classe e na época, não era aquilo que se pudesse chamar de todo inculta ou analfabeta. Para uma mulher já era muito bom, porque a esmagadora maioria, não completava a instrução primária (agora o básico).

Sabes que antigamente as mulheres de mais idade principalmente as dos pescadores ou marinheiros, por volta das seis, sete horas da tarde rezavam o Terço. O terço era uma espécie de colar com bolinhas e cada bolinha correspondia a uma oração, como a 'avé-maria' 'pai-nosso' 'salve-rainha' e outras. Esses terços tinham um determinado número de bolinhas que agora não sei, talvez trinta ou coisa assim. Estou com um na mão na seguinte foto.


Nunca vi a minha avó a rezar com o terço nas mãos, mas eu tinha a certeza que ela rezava mentalmente como as outras mulheres. Também não frequentava muito a Igreja era raro, só ia às missas pelas pessoas que morriam conhecidas dela.




Mas havia um período que antecedia a Páscoa que ela não faltava. Eram umas missas que havia sempre à noite.
Embora, mais crescidote, eu fosse à missa aos domingos, mais para ver as amiguinhas que outra coisa, aquelas missas da Páscoa em que ela a minha avó queria sempre a minha companhia, tiveram muita importância para mim. Mas frequentemente adormecia porque era à noite depois do jantar.

Nessas missas havia sempre o sermão,... é quando o Padre está a falar para as pessoas durante um bom tempo, numa tribuna (tipo uma varanda a meia altura da parede da Igreja). Num cenário, que por ser Páscoa, todos os santos da Igreja estavam tapados com grandes cortinados de cor roxa (?) cor de vinho. Significava a morte de Cristo. É neste clima com o cheiro à cera das velas e das flores, eu escutava concentrado e com toda atenção o que o padre dizia naquele silêncio das pessoas, acompanhado do eco da sua voz dentro da Igreja.
Ele tinha uma fraseologia que eu não ouvia da boca das outras pessoas, palavras e frases novas que me despertavam interesse porque não as conhecia, as histórias (o Evangelho) que não compreendia pela sua carga de simbologia. Então quando conseguia compreender algo que o padre tivesse dito, isso despertava-me uma sensação parecida à de quando li o primeiro livrito e consegui acompanhar a história nele contida. O que me treinou para um melhor poder de interpretação de leitura na escola e compreensão das palavras.
Os símbolos da minha "adolescente religiosidade" eram uma estatueta de Sr.ª de Fátima que foi oferecida pelo meu Avô à minha Avó, um Menino Jesus em cartolina pequenino de ter ao lado da cama, um quadro pequeno da Sagrada Família e por último um quadro do Coração de Jesus que já não possuo.

Por outro lado, uma actividade religiosa, que me deixou recordação, era no Domingo de Páscoa. Padres com pequenas equipes de ajudantes em que um levava a Cruz de Cristo, outro transportava o balde da água Benta (água benzida em cerimónia pelo padre), pois, a água com que benzia as casas em que entrava; à frente andava sempre outro elemento com um pequeno sino a anunciar com o seu badalar a chegada da Cruz.

As ruas ficavam bonitas com flores coloridas à entrada das portas de casa, que era o sinal de que as pessoas dessas casas queriam receber a Cruz. Havia sempre uma pequena mesa com amêndoas, pão doce (já me lembro Pão de , muito fofinho) e outras coisas para o padre comer se quisesse. Quando entrava na casa o sujeito que tinha o balde com a água benta, aproximava-se do padre que pegava numa espécie de pequeno tubo metálico, que ao ser retirado do balde transportava um pouco de liquido e com isso chapinava o local. Chamava-se a isto benzer a casa.

Claro que antes e em primeiro lugar tinha entrado o homem que transportava a cruz para que toda a gente a beijasse.

Mas... quando entra o teu avó nisto tudo ?

No mais agradável da Festa. Andava com outros rapazinhos a correr de um lado para o outro a seguir o grupo do padre que percorria as ruas da Foz onde eu vivia. Algumas vezes o homem do sino deixava-nos transporta-lo um pouco a badalar. E sempre as pessoas, porque estava-mos à porta à espera da saída do padre para ir-mos atrás, para outra seguinte, davam-nos amêndoas e outras lambarices.

Este meu estado de religiosidade acabou com a minha Comunhão Solene, vestido a rigor, com um fato, uma Opa azul e branca, vela numa mão e missal (resumo da bíblia) na outra.
Foi uma grande cerimónia na igreja com meninos de um lado meninas do outro dentro da Igreja (era assim e não podia estar ao pé da minha amiguinha, numa foto está exactamente atrás de mim e na outra não tive coragem e fiquei afastado para o lado).


Depois um grande lanche com muitos rapazes e raparigas, muitos santinhos trocados entre nós (figuras religiosas em papel) e algumas prendas dos adultos. A acrescentar a isto a imaginação de um rapazinho que estava a casar com uma amiguinha, tal linda princesa que também fez a comunhão comigo, sendo que as raparigas iam vestidas quase como noivas.
Gostaste da gracinha,foi?!...
Fui educado na crença da existência de Deus sem fanatismos ou obscurantismos, agora adulto e com esta idade não sei se acredito num Deus. Mas uma coisa acredito. Que há muita injustiça e fome no mundo e Deus nada faz.
Portanto eu acredito no "nada" que somos quando o nosso coração deixa de bater.

Há contudo um livro chamado Bíblia que na minha opinião não é mais que um rol de histórias ou profecias escritas por homens, não por Deus. Para compreender estes escritos primeiro temos, ou devemos conhecer-mo-nos o melhor possível, se não obstruirmos a nossa compreensão do Homem e do próprio Mundo.

Apesar disso Guilherme, por que os homens são livres de terem a fé e a religião que desejarem devemos respeitar e não interferir com as suas concepções, porque a religião em certo aspecto são frágeis capas de "gelatina" que moldam os indivíduos.

13 de julho de 2008

UM AMIGO ARTISTA

Por volta dos meus 15/16 anos, ainda te falta muito para lá chegares Guilherme, o avô tinha dois amigos irmãos um deles o mais velho talves dois anos mais velho que eu, o João.

Era um grande artista a fazer desenhos a lápis, carvão e até, imagina com fósforos anteriormente queimados. Era o João Ferreira, um rapaz muito calado, não tinha continuado os estudos, mas andava sempre com um livro debaixo do braço e ia para os cafés ler, levando com o livro umas folhas de papel e no bolso sempre lápis e esferográficas.

João não gostava muito de mim porque para o feitio dele eu era muito falador. Mas um dia no café depois de assistir com uma roda de amigos, ao trabalho de pintura que ele fazia com o liquido dos restos do café que estavam nas nossas chávenas, tendo como pincel um guardanapo de papel enrolado de forma especial para lhe prestar o serviço que ele desejava, consegui convidá-lo a ir para minha casa, porque tinha lá folhas de papel de vários tipos que a minha mãe trazia da patroa que era uma Srª inglesa, e dava aulas no Colégio Inglês.

Então o João começou a ir até minha casa e a antipatia dele desapareceu durante algum tempo. Era um rapaz revoltado, filho de um taxista que não compreendia que o filho só vivia para a arte. Mas em 1965 em muitas e muitas familias era necessário que os filhos começassem a trabalhar cedo e na melhor das hipóteses iam estudar à noite. Um dia fiz-lhe o desafio de reproduzir uma foto minha tipo passe, e ele aceitou. Ainda colaborou num Jornal que vários rapazes e raparigas criaram na Foz.
Deixei de o vêr a partir de certa altura da minha adolescência. Um pouco casmurro, mas foi um bom amigo.
É este o trabalho dele que ainda guardo com carinho ao fim deste tempo. Sabes para que queria este desenho do meu rosto?. Muito simples. Era para oferecer à minha primeira namoradinha a sério, que eu tinha com os meus tais quinze aninhos.




12 de julho de 2008

AS MINHAS LUNETAS



Tal como agora, em criança entre os oito e dez anos talvez, também usei óculos para correcção da vista. O seu uso limitava-me muito. Por exemplo, quando vinha da escola se estava a chover era uma chatice, porque ficava com os vidros molhados, e isso aborrecia-me.
Depois no regresso a casa quando passava pelo jardim do Passeio Alegre um jardim que eu não dispensava de ir sempre para lá quando vinha da escola, porque também lá estavam os "meninos ricos" com os seus carrinhos miniatura (eram de ferro e pesados) a fazerem corridas nos caneiros de rega dos canteiros. E também nesta brincadeira, como estava sempre com a cabeça para baixo para empurrar o meu carrinho, só tinha um, nunca podia perdê-lo de vista, os óculos tinham tendência a caírem.

Mas um acontecimento não intencional finalizou o uso dos óculos.
Um dia tirei os óculos para ir brincar, também no mesmo jardim colocando-os junto da mala da escola. Quando me fui embora peguei em tudo, menos nas "lunetas" e fui para casa descontraido. A minha avó perguntou-me pelos óculos, fiquei desorientado, expliquei-lhe o que tinha acontecido, e coitadinha lá foi comigo para o jardim procurar os óculos, mas não os encontramos.

Sabes que a minha avó nunca me batia, ficava muito zangada, fazia-me severos discursos, mas...
depois tudo passava e tratava-me por "meu menino".

E aqui deu-se por finda a minha fase das lunetas.

O CHAPÉU DE PALHA E O DIRECTOR ESCOLAR








Maio/Junho, quase fim do ano escolar andava o avô no primeiro ou segundo ano do Ciclo Preparatório (agora o 4º ou 5º ano respectivamente) na Escola Secundária de Matosinhos. Ficava à distância de uns vinte minutos de Eléctrico, apanhava o Eléctrico nº1, com destino a Matosinhos. O percurso era muito lindo, porque era sempre pela marginal, sempre em contacto visual com o mar.
Somente na parte final do percurso o eléctrico circulava pelo meio das muitas fábricas da indústria conserveira, principalmente da sardinha, à mistura das de torrefacção do café e da refinação do açúcar.
De manhã quando ia para a escola saía quase no fim do percurso do transporte. E o primeiro cheiro que me chegava às narinas era o cheiro das sardinhas e do mar.
Depois ia por aquelas ruas (muito rectas e verticais ao mar) e começava a sentir o cheiro de café torrado e também um cheiro muito doce do açúcar, às vezes era tão intenso que parecia que o tínhamos na boca. Claro que isto variava um pouco conforme os ventos.
Neste tempo os bilhetes eram vendidos por um senhor que andava dentro do Eléctrico com uma mala a tiracolo, designava-se por Cobrador (agora o Pica).
Vamos então aos acontecimentos do CHAPÉU e do DIRECTOR da escola.
Neste período do mês havia uma grande festa local (arraial) muito conhecida, o "Senhor de Matosinhos", que antecede quase imediatamente o "S. João" do Porto. O seu ponto central, era no grande jardim em frente à minha escola. Havia todo o tipo e tamanho de Carroceis (muitos mais do que aqueles que já viste nos nossas passeatas), muitas barracas de diversão, comida, louça e bonecos de barro era nesta altura que se comprava mais alguns bonecos para as nossas cascatas para a festa do S. João (depois falo disto tenho tempo).
Guilherme os pormenores são como as cerejas, vamos lá ao chapéu.
Portanto festa local, igual a férias escolares. E...como tinha uma avó muito amiga e querida, que me dava vinte e cinco tostões, (2$50 dois escudos e cinquenta centavos) que era suficiente para ir de Eléctrico até Matosinhos e encontrar-me com os meu colegas que residiam por ali nas proximidades. Com os meu tostões e os deles fazíamos grande festa nos carroceis e matraquilhos. Agora já posso falar no chapéu.

Neste tempo as crianças usavam um chapéu muito parecido com o da figura, mas com um pormenor, alguns tinham uma pequena penugem ou uma pena de uma ave qualquer, colorida metida na fitinha.
Eu não usava estes chapéus de palha, usava boina. Não gostava muito deles, tinha alguns inconvenientes para mim: voavam facilmente o que era mau para quem andava por perto das praias como eu, se o quisesse tirar para fazer qualquer coisa tinha que lhe pôr uma pedra em cima para não voar. Só chatices...
Chatices tive eu com um igual, de um colega da escola. Nessa tarde que fui para Matosinhos depois de uma tarde de diversão, resolvi simpatizar com o até agora dito chapéu e tirei-lho para andar com ele na cabeça, mas pelos vistos era um objecto de estimação do meu amigo. Coitado fartou-se de mo pedir, andar atrás de mim à volta das barracas da festa.
Mas ele parecia ser mimado demais, então o meu interesse pelo chapéu passou para a brincadeira estúpida de fazer sofrer um amigo.
Ainda foi durante um bom tempo assim, até que deixei de o ver. Tinha desaparecido o meu amigo. Sabia que ele residia numa das ruas próximas, mas não exactamente o local. Tentei encontrá-lo ingloriamente no meio das pessoas e barracas e nos carroceis, nem a sombra dele. (Não me recordo do nome, lembro-me que tinha outro irmão).
Sem saber o que devia fazer e como não queria levar o chapéu para casa porque teria que explicar muito bem a história, resolvi ir junto dos portões da Escola e pasma-te; atirar o chapéu para dentro da escola através do gradeamento.
E sabes porquê ? Porque nunca tendo roubado, senti-me como um ladrão sem o ser.
Esse amigo deu-me toda a oportunidade para lhe devolver o chapéu e eu não o fiz.
Bem fui para casa com a consciência aparentemente tranquila porque tinha deixado o chapéu dentro da escola que estava fechada pensando ser um lugar seguro, e como ele morava por ali talvez o encontrasse.
Agora o outro lado da medalha: O DIRECTOR (as escolas tinham um director e não um Conselho Directivo).
Passado poucos dias chega um postal pelo correio dirigido à minha mãe para ir à escola na minha companhia para falar com o Director. A minha mãe pergunta-me o que seria aquilo ao que eu respondi que não sabia para o que era. Isto em pleno período de férias o assunto deveria ser grave.
Se eu não tinha feito mais nenhuma malandrice só podia ser o chapéu, e creio que durante dois dias até à data e hora de lá ir com a minha mãe, o meu cérebro deve ter trabalhado que nem o primeiro computador inventado pelo homem. Como é que eu ia provar que não tinha como intenção subtrair o chapéu do meu colega de escola.
Entramos num gabinete onde estava na sua cadeira um Sr. que eu conhecia, mas que nunca tinha falado com ele. Era o Director. Depois dos cumprimentos, expõe a acusação à minha mãe que me dirigia algumas palavras (não me lembro exactamente quais) até que depois de alguma conversa, tive uma pequenina (como eu me sentia) oportunidade de expor a minha versão dos acontecimentos.
Houve uma breve explicação dos factos do ponto de vista do director à minha mãe, face à queixa dos pais do meu colega e determinou-me a suspensão de dois dias de aulas quando elas recomeçassem.
Sentença proferida pelo "Sr. Director" e mais uma imediata e valente bofetada dada pela minha mãe, que quando cheguei a casa ainda tinha os dedos marcados na face.
Como podia eu provar o contrário?.

Guilherme, muitas vezes devemos antecipadamente ponderar bem os nossos actos.

UM PARTO DIFICIL




Como deves imaginar à quase sessenta anos, não havia a 'rede hospitalar' que há hoje, Maternidades, nem tão pouco 'centros de saúde'. Havia os hospitais nas principais cidades, muitos médicos que faziam consultas particulares e pouco mais. Digo-te a propósito que havia alguns médicos que mereciam ficar para a história por terem abdicado em parte dos seus honorários para darem assistência aos pobres. Alguns deles chegavam a dar dos medicamentos que tinham nos seus consultórios. Em abono da verdade também havia algumas Farmácias que funcionavam como as Mercearias com o livrinho das dívidas dos clientes, sine-dia.
Mercearias eram os locais onde se vendia produtos alimentares.
Já agora fica sabendo que Portugal era um País muito pobre e que tinha acabado dois anos antes a segunda Grande-Guerra.
Isto para introduzir o parto do qual eu nasci segundo o relato repetido muitas vezes, principalmente quando eu fazia alguma asneira mais desesperante. No fim, ficas a compreender.
A minha Mãe deu-me à luz em casa, assistida por uma Parteira, chamava-se Sra Ricardina.
As parteiras da época digamos que eram umas enfermeiras auto-didactas, com uma personalidade muito rude de fazer fugir o diabo. Apesar disto ainda tive de levar com algumas injecções, quando estava doente, dadas pela sra Ricardina.
Segundo a minha mãe nasci em casa e com alguma dificuldade para ela.
Estás a imaginar um parto em casa... (a minha avó Amélia estava presente) depois das limpezas e outras regras de um nascimento, e a minha mãe já comigo nos braços ouve um comentário que a fez pôr a parteira fora-da-porta.
"Trate-o bem que ele não vai durar muito tempo" que era eu...disse a parteira.
Pois foi...! ainda aqui estou, era por isso que quando eu fazia aquelas asneiras de criança, alguém me recordava que, de quem tinham dito não ir viver muito tempo estava a fazer una traquinice muito grande....
Também e talvez por este pequeno acontecimento, eu tivesse tido todo o amor da minha avó e o afecto silencioso da minha mãe.

11 de julho de 2008

APRENDER A NADAR


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Talvês, com os meus oito anos, uma das minhas aventuras de "natação" era ir para casa da minha tia Maria, que ficava muito próximo da casa da minha avó na Rua do Passeio Alegre. Era uma casa antiga (como todas daquela rua), mas esta não tinha electricidade. Recordo-me que era uma casa com muitos recantos e um pouco escura, tinha um grande quintal à frente com um tanque de lavar roupa. Era um tanque enorme. Muitos anos atrás havia em alguns locais tanques de água comunitários, onde as mulheres lavavam a roupa. Portanto eram caixas de água corrente para dez ou vinte mulheres lavarem a roupa.

O da casa da minha tia Maria, era na minha imaginação (ou para o meu tamanho) enormíssimo o que me permitia dar algumas braçadas à "cão", porque ainda não sabia nadar.
Imagina agora um quintal, numa tarde de Verão ou Primavera dentro de água a tomar banho e brincando com tudo que pudesse fazer de barquinhos, num grande tanque, só para mim e... com um cheiro delicioso de uva americana de uma videira que o cobria na totalidade fazendo sombra.
Enquanto isto, a duas irmãs minhas avó e tia sentadas algures à sombra, estavam "sarrotando" quero dizer a conversar e a costurar, fazer meias ou alguma camisola para o inverno.
Havia muitos gatos, mas bom, bom mesmo, era a hora do lanche. Maçãs à fartura, havia lá uma ou duas Macieiras, davam daquelas maçãs um pouco ácidas com muito sumo. E uma caneca de cevada (uma bebida parecida com o café) acompanhando a Sêmea (pão escuro) com marmelada ou manteiga. Isto numa tarde de verão... à sombra, num quintal emanando diversos aromas de plantas, o cheiro a lenha e ao carvão do fogão é difícil de te transmitir as sensações que me causavam, mas diria que todos estes cheiros transmitiam vida, da própria vida das pessoas e dos seus lugares.
Se me tapassem os olhos eu saberia em que casa de quem estava a entrar.
Aquelas uvas caracterizam-se por serem muito doces, distinguindo-se de qualquer outra espécie, mas em excesso provocavam uma tempestade nos intestinos de qualquer criança.
Estarás a pensar: mas um puto de sete/oito anos sozinho num tanque ? Nada de especial, porque as crianças de então não eram tão super protegidas. Muito cedo exercitavam as suas capacidades físicas e de orientação, brincando nos campos e matos, nos jardins, junto ao rio amarravam os barcos pequenos, cedo aprendiam a remar e a nadar, brincavam pelas diversas ruas sem automóveis.
Não quer isto dizer que as crianças daquele tempo andavam abandonadas, pelo contrário estavam vigiados pelos vizinhos. As pessoas nas suas andanças naturalmente reparavam nas crianças dos outros dando atenção aos locais onde estavam.

Vou dar-te três exemplos:
- Ia a correr com outros rapazinhos amigos numa rua e de repente uma voz de mulher que aparecia repentinamente no meu caminho perguntava: "A tua mãe já veio do trabalho ?". Azar eu tinha sempre a minha avó em casa.
- Outra punha-se à minha frente e dizia: "O que andas aqui a fazer ?, vou dizer à tua mãe que andas aqui. Vai para casa.
- Chegava a casa e a minha avó: já te disse que não quero que vás para tal "sitio". Raios como é que ela soube, até nem encontrei ninguém conhecido...E era no mesmo dia.

Estranho... não é meu Neto...?
Já agora, imagina que quando tive a primeira namoradinha "sofri" muito, porque não havia sitio por onde eu passasse que a minha mãe não soubesse e às vezes também antes de eu chegar a casa. Como é que ela sabia que eu tinha passado com uma pequena, numa determinada rua, numa determinada hora ?
Voltando a casa da minha tia. Mesmo que ela não estivesse em casa embora pudesse escalar o portão, não precisava de fazê-lo porque à frente existia (ainda existe) uma fonte muito linda que faz de parede ao quintal e também aí tinha algum espaço para brincar na água.
E muita sorte, porque em frente, era só atravessar a rua, e tinha outros tanques para onde iam as lavadeiras (mulheres que lavavam a roupa das famílias ricas), mas aí não era conveniente porque havia muito sabão na água e elas, as lavadeiras não deixavam.
Não te preocupes, dentro de um ano ou dois estou a nadar no rio Douro como um peixinho.
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P.S. ainda não aprendi a intercalar as fotos no meio do texto, por isso são numeradas no texto.
Foto 1- A tal Fonte, no local da casa da minha tia Maria está um prédio recente. Depois de possivelmente ter caído de velha.
Foto 2, 3 e 4 os tais tanques junto ao rio em diferentes épocas.

9 de julho de 2008

OUTRAS NOVAS RECORDAÇÕES


Guilherme ontem completaste sete aninhos, já passaste para ao 2º ano.
E podes crer, que hoje já começas a ser uma recordação para mim de quando te lia histórias, te cantarolava ao ouvido e te punha na caminha, te dava de papar.
As idas aos Parques e tantas outras coisas de que tu gostavas.
Também és parte dos meus recortes que são destinados a ti, meu neto.

7 de julho de 2008

OS LIVROS DE AVENTURAS






Os livros de aventuras quando eu era pequeno não tinham as características que teem hoje. Nem me lembro de se dar o nome de Banda Desenhada que talvês corresponda como se dizia na época "revista aos quadradinhos".
Não comecei muito cedo como tu (gostavas de brincar com os livros do avô) a ter livros para ver e brincar. Mas desde que a visa-avó Joaquina me começou a dá-los, nunca mais deixei de gostar de ler.
Recordo-me que tal vês com meus 9 anos, a minha mãe, quando chegava do trabalho já no fim do dia, a maior parte das vezes eu já estava na cama. Mas acordado porque me trazia frequentemente um miminho, como um soldadinho em plástico, um chocolatinho, rebuçados, um bonequinho brinde de qualquer coisa, e às vezes... uma sobremesa doce que tivesse sobrado dos patrões. A visa-avó era como agora se diz empregada doméstica que na época era governanta doméstica.
Carinhos como o avô te deu pelo menos até agora quando hoje completas sete anos.
Ás vezes ia com minha mãe para o trabalho, e nos dias bons eu vinha brincar para o passeio (isto na Av. da Boavista no Porto) onde havia um tipo Quiosque que tinha muitas revistas para venda para brincava com o filho mais novo dos donos (não me recordo do nome). A estratégia do pai dele era dar-nos para ver suplementos de jornais antigos que tinham algumas histórias aos quadradinhos. Isto começou a despertar o meu interesse nas revistas que estavam por lá penduradas, mas era expressamente proibido mexer nelas.
Então em determinado altura numa das minhas explorações pela casa (recorda que na infância vivi em casa da minha avó, que era muito grande) descobri no sótão, não a cave que não havia, umas revistas de propaganda, restos da Grande Guerra que tinha acabado poucos anos antes.
Então não mais larguei as revistas, mas tinha um problema não as podia levar para a rua. Porquê ? Bem... não cabe agora aqui responder-te porque é um pouco complexo. Talvez lá para o fim do Blogue.
Mas hoje considero (porque não se punha tantos problemas na educação das crianças) que me ajudaram a que eu desde muito jovem compreenda melhor os sacrifícios humanos, porque essas revistas só tinham fotos de guerra.
E por qualquer razão a minha mãe começou então a trazer para mim quase todos os dias livros de aventuras, como o Bill The Kid, David Crocket, Tarzam, e outros como o Pato Donald, eram revistas formato A5 poucas folhas. E às vezes oferecia-me outros de formato maior como o Tim Tim, Cavaleiro Andante. Claro que foi em substituição dos outros miminhos quase diários, mas os soldadinhos em plástico consegui coleccionar bastantes.
Bem agora diverte-te...

1 de julho de 2008

OS BRINQUEDOS

Aqui está um tanque de guerra com lagartas e tudo. Era de dar corda para andar sozinho.
O meu primo Pedro teve um, mas eu brinquei com uma mota igual a esta que um menino da minha idade um dia estragou-ma.

Tive destes Barquinhos




Tive estes brinquedos menos a Lambreta (do lado esquerdo em baixo)

29 de junho de 2008

AGRADECIMENTO


Obrigado meu netinho por este trabalho que é o reflexo de quando eu te apresentava o Atlas como um livro de histórias e já conhecias o percurso que o avô fez de Portugal á Guiné Bissau, sabias onde se situava a Inglaterra a Espanha, França e Alemanha.
Será que ainda sabes, ou a play-qualquer-coisa já te empoeirou.... Um beijinho.
Tem a data de Dezembro de 2007

AS BRINCADEIRAS COM PRIMO PEDRO





Avô Filipe com cinco ou seis anos

Os brinquedos utilizados nas nossas brincadeiras eram umas camionetas, um cavalinho com carroça, um carro de bombeiros um ou outro barquinho tudo em chapa (folha de latão mas muito bem pintados) uns bonequinhos que eram brindes dos pacotes de Cevada.
O Pedro (o meu primo) que uma ou duas vezes por semana ia lá a casa com a mãe, a minha tia Elvira, às vezes levava algum brinquedo de "luxo" como era o caso de um Jipe militar que era de dar à corda e andava sozinho. Um tanque de guerra que andava e fazia estalidos com relampâgos na ponta do canhão.
Bem... nesses dias eu tornava-me num cachorrinho amedrontado e triste; primeiro porque ele tinha tendência a não me deixar brincar com as coisas dele, segundo se eu insistisse sofreria com o ímpeto agressivo que ele tinha.
Ele tinha brinquedos mais caros de que os meus. E porquê ?
Muito simples, o pai era Funcionário bancário e o avô paterno Gerente bancário.
Neste tempo, pós-grande guerra, estou a falar de 1954/5/6 isto fazia uma grande diferença na sociedade.
Mas... claro que há sempre um mas. Eu tinha umas pequeninas coisas (um dos pequenos tesouros da minha vida) de que ele gostava muito de brincar com elas.
Imagina... A miniatura de uma mala de viagem que naquele tempo era de cartão, teria talvez uns 35x20x10 cm. Dentro guardava um pincel da barba, linha fio do norte, agulhas de fazer rede de pesca, uns paus de madeira muito dura que servia para os marinheiros desfazerem os nós das cordas (creio que cunhetes) e outras coisitas que não me recordo mais.
E sabes que ele adorava brincar com isto. Enquanto eu tinha a voz da minha avó baixinho: "vai brincar com o carrinho dele". Aqui a minha avó tornava-se a sentinela do meu tesouro, principalmente para que ele não partisse as agulhas de rede ou se sentasse em cima da mala.
Falei dos meus tesouros e este como alguns outros que te descreverei mais tarde vinham do meu Avô que era marinheiro, morreu pouco antes de eu nascer, na grande guerra a bordo de um Navio inglês.
Claro que hoje não tenho qualquer ressentimento sobre as brincadeiras com o meu primo. Éra-mos crianças, embora estas condições se viessem a reflectir no nosso relacionamento adulto porque nos forjaram carácteres diferentes.
Agora o que é importante para mim é que desde muito menino aprendi que nem todas as crianças eram iguais.
p.s. vou procurar na net as imagens de brinquedos que eu tivesse tido,
na foto sou eu entre a minha porta e a porta da casa do Zé Manel do qual já escrevi.

DESCULPA-ME

Meu neto, depois destes posts concluo que os meu dotes para a escrita são muito sofríveis.
Nunca escrevi nenhum diário e muito menos sobre mim.
Desde pouco antes de nasceres, e já estás a fazer sete anos, até agora que o avô pouco leu. Embora antes sempre tivesse lido muito.

28 de junho de 2008

OS MEUS BERÇOS

A minha avó Amélia comigo ao colo

Do meu berço não me lembro, nem sei se o tive, mas recordo-me de uma cadeira articulada de madeira que depois de mexida ficava uma cadeirinha com respectiva mesa para brincar.
Então quando o meu primo Pedro ia a minha casa era o nosso ponto de brincadeira, à vez ocupava-mos a cadeira com os nossos brinquedos. Sabes que ele às vezes era um pouco mau para mim, porque o seu pai era muito severo e não o deixava brincar à vontade, então quando estava comigo nas nossas brincadeiras era muito exigente. Tinha sempre a minha avó a pedir-me para eu ter paciência, mas eu ficava muito zangado com os arranhões que ele me fazia com as unhas.
Voltando aos meus berços, lembro-me do colo da minha avó e quando ela me convidava para ir brincar em cima da sua cama, que era muito grande, isto enquanto ela estava à janela e ao mesmo tempo velava pela minha pessoa. Era uma sala grande, com uma espaçosa cama de casal.
Gostava muito, porque tinha muito espaço disponível e muita luz. Das duas janelas desta sala via-se a entrada da Foz do rio Douro até Sobreiras, local de uma curva do rio para a esquerda seguindo-se um sitio chamado Massarelos. Via-se os Navios que passavam, os barcos pequenos (os botes), o Marégrafo local de sinalização dos Pilotos para os Navios, o Salva-Vidas que servia principalmente para ir salvar pescadores cujos barquitos se viravam nas águas do rio procurando vencer as correntes com o peso das suas redes de pesca. As lanchas dos Pilotos e outras coisas que irei tentar falar-te.
(voltarei a falar deste quadro, que além do mais, foi o local onde pelas primeiras vezes, aprendi alguns dos valores da vida)
Como deves imaginar as casas antigamente eram grandes e o mobiliário também.
Uma "foto" dessa sala que ficava no andar de cima será: uma cómoda muito grande com grandes gavetas, um pequeno móvel onde estava um rádio e outras coisas, a tal cama de que falei, duas mesinhas de cabeceira, duas ou três cadeiras e mais duas coisas altas quase da altura de um adulto, creio que lhe chamavam "colunas" imagina umas mesas com umas pernas muito altas e que o tampo não é maior que o diâmetro de uma bola futebol. Tudo isto em madeira de cor castanha, com muitos relevos e sendo peças muito pesadas. Ah...faltava falar do guarda-vestidos (agora guarda-fatos) que não era do mesmo estilo do restante mobiliário, mas tinha um espelho externo com que comecei a avaliar as minhas próprias palhaçadas, danças, e....mais tarde a vaidade de rapazinho levava a pentear-me vezes sem conta à sua frente.