25 de janeiro de 2011

PRETEXTOS DE ESPERANÇA

Tudo fervilhava de formas diferentes à nossa volta, aquilo que sabia-mos antes de forma subversiva, era agora do conhecimento geral. As manifestações de solidariedade com o Chile, com os países africanos e outros, multiplicavam-se. E romanticamente isso fazia parte de nós mesmos, não estava-mos enquadrados partidariamente, pensar nos outros e agir em conformidade com as nossas limitações e consciência, era no fundo o que queríamos fazer tendo como experiência a nossas vidas adolescentes no fascismo. Apesar de tudo, começam a surgir os primeiros sinais de divisão na sociedade e consequentemente as decepções, mas soubemos resistir alimentando a nossa esperança num mundo melhor. Que maior subversão do que amarmo-nos e gerar o companheirismo e a camaradagem entre os que nos rodeavam.


JANTAR FORA


De comboio até ao Rossio, Chiado e descer a R. do Alecrim.

Cais do Sodré até ao Terreiro daqui ao Rossio e completava-se um dos nossos passeios.
Mas... num desses passeios quase já ao fim da tarde ao descer-mos a R. Alecrim com a Susaninha, convidei-te para jantar na Cervejaria Alemã. Não me recordo do diálogo só que estava em causa o que a menina ia comer. Um pouco surpreendida (ou apanhada de surpresa) lá entramos dispostos a ir comer o famoso bife, desde que fosse conseguido resolver a refeição para a criança.
Como ainda era cedo, estavam uma ou duas mesas ocupadas, no bar da entrada, algumas pessoas. Com as "etiquetas" do empregado, comecei a ficar atrapalhado, primeiro porque estava na tua companhia e eras minha convidada e segundo tinha que resolver correctamente o restante.
O empregado atenciosamente quis dar solução ao caso, mas tu não deixaste por mãos alheias a refeição da criança e acabaste tu por resolver com o senhor e seria uma sopa apropriada.

Entretanto num restaurante quase vazio eu tentava distrair a Susana, e foi ela mesma que disse a última palavra, quando o empregado se afastava da mesa "Sr. eu quero a sopa passadinha".
Claro esta frase granjeou a simpatia do Sr. e quando lá fomos mais uma outra vez, fomos cordialmente atendidos.

Foi durante esta refeição que gravei na minha mente, a delicadeza e a elegância dos dedos das tuas mãos.

O POSTAL

Tinha muitos e muitos Postais Ilustrados, não de colecção, mas sim como recordação de uma exposição que eu tinha realizado com amigos na minha adolescência.


A estes foram-se juntando outros da Suzaninha que nós enviava-mos para o Porto quando ela em pequena ia de férias. Só houve um que definitivamente não me deixaste juntá-lo com os outros dentro de uma caixa.


Quando jovenzito como tu à data deste Postal, não tive oportunidade de receber qualquer correspondência, a não ser os postais das faltas na escola e na melhor das hipóteses uns bilhetinhos dobrados em quatro por mão própria...


Claro que este Postal era muito especial para ti, tinha sido enviado pelos teus pais quando também estavas de férias.


Talvez único e não o quiseste perdê-lo. E eu guardo-o até poder.


23 Maio 2007

23 de Mai de 2009















Sempre para ti. 23-05-2007

PRECISO DE TI

18 de Jun de 2009






Preciso tanto de ti,

e tantas vezes te chamo,

mas não é suficiente a força com que te amo.

Amei-te imenso na vida, e agora num lugar frio

um coração magoado clama um espaço vazio.

16 de setembro de 2010

RECOMEÇAR, ASSIM O ESPERO

Sabes perfeitamente o porquê, em parte de tão longa ausência.
Nem sempre as coisas correm como desejamos, e tu sabes isso. Mas cá estou agora, porque tu mesmo sem o saberes, induziste-me a voltar.
Junto à entrada da Escola
Tão só, porque no inicio deste este ano escolar fizeste questão que eu te acompanhasse à Escola no primeiro dia de aulas. Fiquei muito contente, porque me fez muito feliz o teu pedido, agora que estás muito mais crescido.
A àlgum tempo falamos sobre os teus ' ídolos 'de agora e os meus da minha juventude.
Falei-te especialmente de um, o Che Guevara. Tentei da forma mais simples possível, explicar-te quem ele foi. Até aqui nada de especial, pensei que possivelmente irias esquecer vagamente, na melhor das hipóteses.
Mas mais uma vez, valorizaste a estória do teu avô, quando ao ires com a mãe às compras viste uma mochila com a figura de Che. Querias, ficaste preocupado porque só lá tinha duas ou três penduradas. E fizeste a mãe entrar em "negociações" comigo para comprar ou não a mochila, o estilo e... outros pormenores.

Foste comprá-la, e quase propositadamente tive de ir a tua casa ver a mochila.
Obrigado meu neto.

18 de junho de 2009

AMIGOS


A falta de amigos faz
com que o Mundo
pareça deserto.

É muito bom
têr a tua amizade.

4 de junho de 2009

LIVRO MEU É UMA PRENDA TUA

Uma manhã primaveril em Abril deste ano, ofereci-te alguns euros para ires com a mãe a Sintra, ver teatro infantil com oficinas de trabalho para vocês crianças. Pelo que me disseste, foi aventura de que gostaste mas lamentando que estavam poucos meninos.
Quando fores grande vais compreender porque foi assim. Quando são grupos de teatro independente e populares, que vivem só do apoio das pessoas para poderem ser Actores Livres o resultado é quase sempre o que viste. Só pais interessados na evolução dos seus filhos, compreendem a necessidade de as crianças irem a estes espectáculos que são livres de normas de publicidade que também vês na televisão. Não notaste a diferença ?? Reparaste que não havia nada que já tivesses visto na TV ??.
Bem o motivo porque já estou falando sobre ti, é que me estou aperceber que já começas a ser uma saudade, porque estás a deixar de ser um bébé.
Criança pequenina a quem, um dos muitos livros de histórias que eu comprava para ti, porque todos os dias te lia uma história, foi um livrinho sobre um Ermita. Como te deves recordar, era um Caranguejo que procura sempre uma concha vazia para se introduzir dentro e anda sempre com a casa às costas. Tiveste a oportunidade de acompanhar a vida de um bichinho destes , quando o avô montou um NanoReef (pequeno aquário de água salgada).

Acontece que pelas cores ou pela forma como te contava a pequena história, obrigaste-me muitas vezes a repeti-la até adormeceres.
Um farol, um ermita, uma estrela do mar, rochedos, a praia, as gaivotas e as nuvens eram as personagens.
E passado algum tempo era uma das histórias que gostavas de fingir ler à avó Adélia, quando resolvias arranjar pretexto para atrasares outros afazeres, procurando emitar-me nas entoações dadas aos personagens da história.
Nesta tua ida ao teatro, onde havia pequenos trabalhos artesanais à venda, viste um cinzeiro, se calhar para ti era um pratinho de vidro e pediste à mãe para "comprar para o avô". Não podendo a mãe meter-se em despesas desnecessárias a tua convicção do justo pedido foi tão grande que a tua mãe não hesitou em to satisfazer.
Quando vi a tua prenda, compreendi que a imagem do cinzeiro com os elementos e cores da história do Ermita te fez recordar quantas histórias bonitas te li (e outras que me explicaste à tua maneira), quantas músicas te sussurrei ao ouvido, o menino negro, hino da alegria, o meu menino é de oiro, canta amigo canta e tantas outras, que diariamente te presenteava para adormeceres.

Obrigado meu neto. Foi muito importante para mim.


22 de setembro de 2008

Vanessa-Mae plays Classical Gas Raggae

Mas porque não quero que digas que sou antiquado aprecia este até ao fim

Vanessa Mae : Fantasy on a theme from Caravans

Meu neto, ainda não regressei. Entretanto delicia esta música com uma violinista de que o avô gosta muito. Embora actualmente actue com violino electrónico, começou os seu grandes espectáculos com violino clássico.

8 de agosto de 2008

REGRESSEI....

Já alguns dias que aqui não vinha, não por falta de vontade mas, Guilherme nem sempre as coisas correm como nós desejamos e por exemplo já estou à muitos dias sem te ver e isso está a aborrecer-me, mas adiante. Tenho agora oportunidade de te mostrar individualmente alguns dos brinquedos com que brinquei.


Há um que me era muito aborrecido; o do cavalinho com a carroça, porque o cavalo estava sempre a dar cambalhota ao mínimo obstáculo mesmo muito pequenininho. O rakrakrak, a avó Amélia só me deixava brincar com isto no quintal porque não suportava o barulho, e também punha reticencias com o passarinho, aqui era taktaktak.





Este reboque (com guindaste) era um dos meus predilectos, porque me permitia recriar situações de rebocagem de pequenos carrinhos e barquinhos. E também umas caixinhas muito especiais de cortiça, que nunca mais voltei a ver e tu também não irás ver proválvelmente. Estas pequeninas caixas em cortiça, continham as ampolas das injecções. Então o avô com fio de embrulho (agora é fita-cola ou fita-decorativa) amarrava a caixa como se fosse um pequeno embrulho e pendurava no guindaste e levava a "mercadoria" para a outra ponta da casa, o que dava um grande trabalho, com paragens... por diversos sítios.


Esta motinha com atrelado também gostava de brincar porque deslizavam muito bem quando tinham alguma coisa dentro. As rodas e os eixos eram metálicos e por isso andava bem.
Em conjunto com estes brinquedos havia os pequeninos barquinhos feitos com casca de árvore, que eram moldados raspando na pedra dos passeios e que o avô já te ensinou a fazer, quando fomos no comboio azul e atravessamos a ponte 25 Abril sobre o rio Tejo. Lembraste ?

Fiz dezenas deles e brincava no tanque de lavar roupa, ou nos dias mais frios a minha avó deixava-me brincar na cozinha, numa bacia grande com alguma água.Quando mais rapazote e já sabia ter cuidado com facas ou canivetes (navalhas) fazia barcos com as bases das folhas das Palmeiras, que caíam durante o inverno e dava-me tempo para fazer os barcos aos bocadinhos, até chegar os dias bons da Primavera para ir brincar com eles para as Linguetas do cais. As bases das folhas tem a forma básica de um casco de barco, e isso facilitava muito a feitura, mas era trabalhoso... ainda fiz uma meia dúzia deles na minha vida.

Netinho que tenhas usufruído muito no teu mundo do brincar.

29 de julho de 2008

MÚSICAS - DANÇAS - INICIAÇÕES II/II

Gostaste de ver e ouvir este tango?, será algo estranho para ti concordo, porém independentemente de gostares ou não, tens de reconhecer o valor da execução da música sem qualquer electrónica a coreografia simples, com arte e não o simples abanar de corpos.
Está bem queres o resto da história.
Estávamos em Maio de um ano, algures por 65/66, tinham começado aquelas tardes de quase verão. É nesta altura que que se vai passear pela avenida, os rapazitos da minha idade começam a procurar as companhias femininas para o verão que se aproxima, e mais imediatamente para os bailaricos do São João.
Ora o teu avô num grupinho maluco de rapazes, lá conseguiu juntar-se a outro grupinho de miúdas com quem passávamos os restos das tardes na avenida até ao Castelo do Queijo, sentando-nos nos bancos do jardim, num misto de brincadeira infantil e o querermos parecer já crescidinhos. Deste grupo os nomes que me recordo são a Joaquina, a Zé, a Anabela e a Adélia.
Não não era a Avó Adélia, embora no próximo Post eu te vá falar sobre esta Adélia e talvês fiques com uma opinião parecida com a minha de que nada acontece na vida fora do "Puzzle".
Estava em casa numa tarde de sol (já não morava no Passeio Alegre tinha mudado para aRua Bela que tu ainda conheceste) bateram à porta a avó Amélia foi à janela e chamou-me dirijindo-se ao meu quarto e diz-me serenamente que estava uma rapariga à porta para falar comigo.
Guilherme se eu tivesse um buraco à minha frente tinha desaparecido.
Era a primeira vez que uma rapariga me tinha ido procurar a casa, nunca tal me tinha acontecido fiquei todo envergonhado perante a minha avó e lá fui à porta.
E quem era senão a Adélia em pessoa e sozinha (o que era mais impressionante) a convidar-me para irmos dar uma volta.
Com alguns dedos de conversa à porta a avó não apareceu junto de mim. Ficou dentro de casa.
Guilherme, esta atitude da avó Amélia, foi uma manifestação de confiança e respeito no neto apesar de criança. Por isso eu admirei e gostei tanto da minha avó Amélia; e a tua avó Adélia também se dava muito bem com ela.
Então devo ter ganho algum sangue frio para a ocasião e fui pedir à avó para poder ir dar uma volta, e sabes que me deixou sair, claro depois das recomendações habituais.
Esta amiga Adélia decididamente era a alegria em pessoa. É difícil fazer o retrato para ti, que nasceste à tão pouco tempo. O clic dará mais ou menos isto: uma miudinha com a minha altura, da mesma idade que eu, magrinha, morena, cabelo curto, mini-saia, e meias de rede (que à pouco tempo esteve na moda outra vez). Sempre alegre, desafiadora, não aparentava medo de nada.
Creio que no dia seguinte ou dois, já estava novamente a passear na sua companhia. Lembro-me que conseguia-mos falar sobre coisas diferentes, dos nossos gostos e desagrados. E estranhamente não ia-mos passear para a Avenida, mas sim para aquelas ruas interioriores, largas com árvores de cada lado... as ruas dos Palacetes das "pessoas bem".
Sabes qual era o divertimento dela ??? Esconder-se. Sim esconder-se, tinha um prazer enorme em ver-me andar à procura atrás das grossas árvores ou nas reentrâncias dos portões das casas.
Isto devia-se ao facto que ela sendo do interior da Foz, conhecia melhor os locais dos nossos jogos.
E com estes passeios chegamos à altura do São João. E eu sem saber dançar ou então com vergonha de dançar, como queiras.
Na Foz havia muitos bailaricos, Nevogilde, Túnel do Monte da Luz, Paraíso, Sobreiras, e outros lugares, sendo claro o mais importante o da Cantareira no Passeio Alegre.
Mas a menina à noite só podia ir para o baile de Novogilde, porque era para lá que iam os irmão mais velhos e morava ali perto.
Imagina, primeiro que eu estava a dar as minhas primeiras saídas à noite, segundo que tinha que me deslocar quase para o outro extremo da Foz para ir ter com ela, terceiro porque parecendo que adorava dançar o que é que eu ia lá fazer?.
Mas ao contrário do que pudesse parecer, ainda hoje estou para saber como é que ao som das musicas do Tom Jones, Adamo, Sandi Shaw a menina que cantava descalça, e duma música que eu gostava particularmente "ah ah..?..clawn", fui parar a um recatado canto de uma santíssima Capela a dançar, com a minha amiguinha Adélia, ensinou-me a onde colocar as mãos, o primeiro, segundo passo, frente trás, para o lado e lá fiquei naquele ritmo. Estava a tentar recordar a música mais tocada na aprendizagem. Se me lembrar volto cá e escrevo em negrito ok? Delilah do Tom Jones e também outra da Mary Hopkins.
Embora na altura parecesse, pelo menos para mim, que estávamos escondidos do mundo não estávamos, porque havia pessoas a passarem em direcção do bailarico, mas como de facto deviam ir com mais atenção com o que se iam deparar, não reparavam em nós.
Devo-te dizer que a Capela embora um pouco afastada do largo onde se realizava o baile quase que constituía um limite. A frente dava para o baile, e eu estive nas traseiras no canto da nossa esquerda na fotografia. Bem... Amplia a fotografia para veres melhor....
Talvez à quarta ou quinta música o convite foi outro, não podíamos ficar ali todo o tempo e então tinha que ir lá para o meio com ela, ainda bem que o Tom Jones tinha uma música lenta.. lá consegui controlar a timidez, dancei todo o tempo que lá estive e quando fui embora, já estava desejoso do dia seguinte.Afinal era bom dançar.
Foi assim que aprendi e poucas vezes dancei com mais alguém à excepção da tua Avó Adélia com quem dancei muitas vezes no aconchego da nossa casa.
Claro que na Guiné quando me era veladamente permitido, (porque aquilo que parece uma activa dança local, pode ser por vezes uma cerimónia séria) lá entrava eu no Batuque, mas aí não estava mais que a libertar a pressão daquilo que vivia lá.
Esta amiga enquanto convivi com ela num namoro muito indefinido e rebelde com crises de identidade, foi sempre uma óptima amiga e sua tia que me reservo no seu nome, foi sempre muito nossa amiga compreensiva e excelente educadora para a época.
Sem pretender transformar o blogue em discoteca vou colocar as duas canções próprias para consumo na época.
Meu neto de outra forma dificilmente saberás que esta concepção de música existiu.

25 de julho de 2008

MÚSICAS-DANÇAS-INICIAÇÕES I/II

Pois, pois também quando era pequeno, conseguia dar escapadelas ao controle da minha avó, dizia-lhe que ia brincar para a viela (um acesso estreito) que ficava nas traseiras da casa, mas ia para a rua.
Naquela época havia muitos tascos (tabernas) pela redondezas, locais onde se juntavam os homens principalmente, matando as horas e os dias sem trabalho, à espera de uma oportunidade para a estiva (descarga de Barcos), a acalmia do mar para a pesca, ou somente para se abrigarem dos dias de inverno e ou afogarem suas mágoas no vinho. Eram homens que dificilmente conseguiam estar em casa afastados da beira-mar.
Mas acredita Guilherme, que estes homens tinham mais honra e dignidade que muitos dos de agora bebem wisque ou choots.
Então eu, isto acontecia aos Domingos de tarde, conseguia às vezes ir para as tais tabernas, porque havia sempre um um grupo de homens a tocar e cantar (conjunto musical como se designava) musicas populares e às vezes fado. Então essas tardes eram um mundo raro e muito indecifrável para mim. A alegria reinava, havia algumas mulheres e algumas crianças presentes. Brincava-mos às escondidas pelos recantos e à volta das mesas quadradas cheias de copos meio-bebidos de vinho tinto, pão, azeitonas, bocados de bacalhau salgado, um ou outro chouriço de lata (chouriço de conserva em grandes latas que era muito gostoso) e nós entre uma corrida e outra ia-mos petiscando algumas dessas "iguarias", obtidas repentinamente para não dar oportunidade a que nos mandassem estar quietos ou nos corressem dali para fora. Azáfama que só acalmava quando alguém nos obrigava a sentar-mo-nos no chão em frente ao agrupamento musical para ouvi-los tocar. Até que aparecia a minha avó, que entrava por ali dentro com um ar altivo, a poucas pessoas falava e segurava-me firmemente e saíamos dali com a mesma velocidade que entrou, sem me dar nenhuma hipótese de protestar. Era sempre assim que terminava o meu interesse por aquele tipo de brincadeira.
É neste ambiente que tenho o primeiro contacto com a música e ao vivo.
Desde pequenino que assistia e ia dar umas voltinhas com a minha mãe às festas de S. João, que se desenrolavam mesmo à frente das minhas janelas e de facto a música que era transmitida pelos altifalantes fazia-me muita confusão de onde ela vinha.





As ornamentações começavam no fim das Palmeiras (ou Jardim do Passeio Alegre) e iam até junto à casa da minha tia Maria de quem já te falei. Esta ornamentação eram mastros de madeira com bonitas decorações feitas em madeira fina e forradas a papel fatiado (às tiras), as lâmpadas era encobertas com balões de papel de cores variadas com o formato de um copo.





Passava pelo largo do Marégrafo onde se realizava um grande bailarico, as pessoas dançavam durante horas e horas mais ou menos agarradas, por cá ainda estava muito desconhecida a musica "rock and rol ". Mas havia uma excepção. As peregrinações dos ciganos que eram muito devotos às festas de S. João. Eu ficava fascinado pela sua forma de dançarem, principalmente quando tocava tangos, era para mim um perfeito bailado, dançavam afastados só as mãos se tocavam, com geométricos passos de dança.
Era com este ambiente que o avô desde pequenino pelo menos uma vez por ano durante quinze dias, tinha música várias horas, todos os dias a entrar em casa devido ao volume dos altifalantes e à proximidade. O que acaba por me levar para a frente do tal guarda-roupa em frente ao espelho, ensaiar os meus primeiros passos de dança ou o karaoke da época. Fingir que cantava em frente ao espelho.
Bem que mais te posso dizer sobre esta infância nestes mundos ? Num instante posso acrescentar que mais tarde, mais rapazinho ajudava (ou andava no meio) da concretização destas festas, mas depois conto-te.
De facto assisti a muita musica a muita alegria, mas não sabia que havia outras músicas e outra forma de ouvir música.
E isso descobri quando comecei a ir a casa do meu primo Pedro de quem já te falei, e o meu tio Diogo (o tal pai austero) começou a dar-me alguma atenção até então negada.
Empregado bancário administrativo, tinha como hoby a electrónica para o qual comecei a dirigir o meu interesse e lá me ia sentando muito quietinho ao lado dele, a vê-lo a fazer umas montagens a construir uns rádios a válvulas. Não gostava muito dele, tinha medo dele, mas reconheci mais tarde, adolescente, que era um homem muito inteligente, mas politicamente enigmático. É nessas tardes ou pequenos serões que ao mesmo tempo que sorvia os poucos e pequenos ensinamentos que ele me dava sobre o que estava a fazer, ia escutando através das suas aparelhagens de alta-fidelidade (Hi-Fi) com um nível sonoro baixo, musicas do Glen Miller, Benny Goodman por exemplo, mais as grandes obras sinfónicas de Handel, Chopin, Mozart e as penetrantes marchas militares que me causavam arrepios, em alguns momentos quando dedicava mais atenção. Estes arrepios vim a senti-los já adulto meu menino... mas arrepios de revolta com os mesmos sons.
Gostava de te referenciar as idades que eu tinha nestas fases, desculpa é-me difícil, tenho estas recordações mas não consigo dar-lhes uma ordem no tempo.
Portanto é nesta altura que tenho contacto com a música clássica de variados tipos sem qualquer apoio explicativo, eu é que intui a diferença.
Outra experiência, creio que quando andava na 3ª classe (3ºano) fui ver uma peça de teatro que agora não me lembro nada de nada do conteúdo mas uma coisa não esqueci; o tema musical era a "Valsa da Meia-Noite" e os actores vestidos com fatos muito coloridos e rendados.
Neste momento deves pensar que eu era um puto que se ia tornar num bom dançarino...
Entretanto terei chegado à crise do armário, não sei neste momento se quando me leres, já passaste ou ainda vais passar por isto, olha que às vezes é muito complicado, cuida-te...
Bem entre estas andanças e mais umas semelhantes cheguei aos meus treze, quatorze anitos.
O primeiro amor, o aprender a despertar a atenção da miúda eleita, era uma trabalheira dos diabos.
Sim porque não é como agora tudo ao molho e fé em Deus, tudo se tornando fácil, mas sem consistência na maioria dos casos, principalmente ao nível dos sentimentos humanos.
As miúdas deste tempo tinham o tempo ocupado com os estudos, ou então na sua maioria já começavam a trabalhar em algum atelier de costura onde era feita roupa por medida, principalmente para senhoras. Como diversão além de se ir uma ou outra vez ao Cinema não passava de uns passeios ao Domingo pela Avenida da Foz, pelas Palmeiras, ir comprar uns sorvetes às esplanadas das praias.
Bom mesmo, eram os bailes nas salas das Colectividades (Associações Populares de carácter cultural), pois era bom, mas não para mim. É que o teu avô Filipe era muito aventureiro, mas bastante tímido. E as raparigas iam sempre a esses bailes acompanhadas de uma irmã muito mais velha, uma tia e às vezes com a própria mãe. Havia uma rapariga linda, linda como uma estrela, chamava-se Fátima. E era tão linda que para mim bastava-me olhar para ela. Sabia dançar e eu que ainda não sabia nem nunca tinha aprendido fiquei muitos meses numa posição desconfortável, mesmo tendo muito poucas possibilidades de vir a dançar com ela devido à vigilância por terceiros.
Bem, se pensas que foi ela que me ensinou a dançar, estás enganado. Nunca dancei com ela. Escusado será dizer-te que foi o primeiro amor, e muito difícil, porque ela tinha um pai que devia talves considerar o namoro um sacrilégio, e eu tinha uma mãe que devido à rede de informações que tinha, sabia sempre onde eu tinha estado. Portanto nossos passeios eram muito clandestinos pela ruas da Foz e graças à cumplicidade das amiguinhas dela.
Estou a dar-te estes segredos, mas não te preocupes que avó Adélia conhecia-os.
Assim se passaram perto de três anos. Continuando a ouvir música aqui e acolá, mas dançar nada.
Ao fim deste tempo concordamos, devido principalmente à rudeza do pai que o namoro tinha que acabar, ou melhor ser interrompido até um dia...que nunca mais veio por circunstâncias várias; culturais, opções, rumos diferentes...

Entretanto começa a aparecer a onda rock americano ,começam a propagar-se os "bailes de garagem" (bailes de pequenos grupos de jovens) pela rapaziada e deixando de ser um privilégio dos meninos ricos em realizar esses bailes.
O Frias (é o nome de um rapaz) filho de um casal que tinha um Salão de Cabeleireiro já na zona rica da Foz para as "senhoras finas" era um dos meus amigos e começou a realizar uns bailezinhos mesmo... na garagem da Vivenda, com a conivência da empregada de lá de casa quandos os pais dele iam para fora aos fins-de-semana. A empregada embora mais velha que nós, ainda era bastante nova, mas já estava influenciada também pelas modernices que começavam a chegar de fora. A música do Twist, as saias mais curtas, as camisas mais um pouco decotadas, roupas mais coloridas e mais umas modinhas como o fumar por exemplo, não que as mulheres não fumassem, mas mais descaradamente, era muito depreciativo na sociedade da época.
Ela encobria as nossas ousadias e até nos fazia uns lanches bons.
Contudo, apesar de ter ido a muitos bailes na garagem do Frias, continuei sem aprender a dançar, apesar de esporádicas tentativas de algumas moças em me ensinarem. Raios porque era tão tímido ?
Entretanto há aqui um período que ando na orla de um grupo musical, porque um dos elementos, mais velho do que eu, como reconhecia que gostava muito de mexer em botões e coisas eléctricas, digamos que apadrinhava a minha vontade de colaborar, mas foi sol de pouca dura porque não gostava de estar sempre a ouvir as mesmas músicas nos ensaios.
Depois de ter circulado por muitos bailaricos, brincando enquanto infantil, com postura de um rapazinho e depois querendo arrastar a asa a alguma amiguinha, lá fui penando pelo meio das amigas e amigos que eu tinha e que sabiam dançar tão bem mesmo com os novos ritmos que estavam a chegar.
HUFFF.... finalmente chega a altura em que aprendo a dançar da forma mais rocambolesca que tu possas imaginar e não imagines nada, porque os primeiros passos de dança a sério com uma rapariguinha muito arisca, no sentido de que ninguém estava triste ao pé dela, foi num cantinho de uma Igreja, quase na obscuridade, mas com muita gente próximo, e mais não conto por agora.
Fica para a próxima carta. Ok?

23 de julho de 2008

Nana Mouskori JE CHANTE AVEC TOI LIBERTE

Meu Netinho, encontrei esta música, a que vezes sem conta te cantarolava baixinho quase ao ouvido, enquanto passeava contigo ao colo pelo quarto, para tu adormeceres. Ora experimenta a fechar ligeiramente os lábios e trautear a música; era como o avô fazia. Quem me deu a conhecer esta artista e algumas das suas canções, como o Menino do Tambor foi a avó Adélia.