19 de março de 2012

BRINQUEDOS 'TERRIVEIS'

Guilherme, havia um ou outro brinquedo que me era proibido brincar com eles dentro de casa, apesar de esta ser grande.
Eram principalmente estes:
O ciclista, porque tinha uma incomoda campainha em miniatura, como as das bicicletas.
Outro de andar às voltas com ele seguro na mão e que fazia um rak, rak, de tirar qualquer pessoa do sério.
O do passarinho com as asas de madeira a baterem uma na outra e o barulho, aborrecia a minha avó.
E finalmente um outro que era uma roda tipo dentada, que passava sob pressão numa tira de chapa e fazia trak, trak.
Estes brinquedos, eram-me oferecidos pela minha mãe, na altura das festas do Sr. Matosinhos, S. João, Srª da Hora e às vezes quando ia ao Palácio de Cristal.


A ordem determinada pela minha avó, era que só podia brincar com aquelas tretas, no quintal ou na rua à porta de casa.
Não foram de todo brinquedos de minha eleição, mas recordo-me de uma ou outra brincadeira acompanhada da correspondente zanga e avisos da minha avó.





3 de março de 2012

A JUVENTUDE DA REVOLUÇÃO


A REVOLUÇÃO, É SEMPRE JOVEM.



- SEMPRE JOVEM, PORQUE MOVIDA PELO AMOR E TRANSPARÊNCIA DE IDEAIS.


- SEMPRE JOVEM, QUANDO VAI BEBER ENSINAMENTOS AOS MAIS VELHOS DO SEU POVO.


- SEMPRE JOVEM, PORQUE ROMÂNTICAMENTE ACREDITA SINCERAMENTE NOS QUE A RODEIAM.


- SEMPRE JOVEM, PORQUE VOLUNTARIOSA NÃO OLHA A PERIGOS, SOMENTE PENSANDO EM COMBATER OS OPRESSORES.


- SEMPRE JOVEM, PORQUE RENOVA E POR VEZES TRANSFORMA.


- SEMPRE JOVEM, PORQUE OS SEUS ÍDOLOS FORAM EM MAIORIA ASSASSINADOS AINDA NOVOS.


- SEMPRE JOVEM, PORQUE CONSCIENTES DA FORÇA QUE SÃO DE UM POVO.


- SEMPRE JOVEM, PORQUE TENDO DIREITO A TUDO PEDIR, COMO LHES É DE DIREITO, NADA REIVINDICAM PARA SI.


SÓ A LIBERDADE.

(Carlos Filipe)

19 de outubro de 2011

POSTO AVANÇADO - Guiné Bissau

POSTO AVANÇADO



Local: Galomaro, Guiné-Bissau (Jan/Fev. 1972)

Meu neto estou a tentar contar-te algumas recordações de quando o avô esteve na Guiné-Bissau (1) em 1971, durante a guerra colonial.

Fim da tarde, o ritual do jantar, noventa por cento das vezes constituído por Vianda e Estilhaços (arroz e pedaços de carne estufada) tinha terminado.
A maior parte dos meus camaradas do Destacamento dirigem-se para a Porta de Armas, onde já se encontram muitas jovens lavadeiras africanas das tabancas próximas.
Dá-se inicio à euforia de um baile de tentações, libertação de afectos em que também se libertavam alguns recalcamentos, pintalgando aqui e acolá um ambiente de risos, gritinhos e corridinhas fugindo de tentações, num desafio quase erótico.
Enquanto isto um pequeno grupo de homens preparam suas armas e restante equipamento necessário, para ocuparem os seu postos de vigilância e segurança, os patrulhamentos à volta do Destacamento. A saber, sentinelas no interior e no exterior, os “postos avançados”.
É neste clima que alcanço o meu primeiro grande susto nos dias das duas primeiras semanas que cheguei a Galomaro. (sector Leste da Guiné-Bissau).

Não estava destacado para nenhum serviço (o que muito poucas vezes aconteceu e ainda hoje não compreendo porque aconteceu), resolvi juntar-me a um pequeno grupo de camaradas com destino aos Postos Avançados. Esta decisão não foi motivada por qualquer tipo de valentia, mas porque pessoalmente tinha assumido, que procuraria ser conhecedor de tudo, conforme os objectivos que me levaram a aceitar o meu embarque com destino à Guiné-Bissau, mas que saíram em grande parte frustrados devido à doença, que originou a minha evacuação.
Juntamos-nos quatro homens, incluídos um Furriel mecânico e um cabo dos “velhinhos” (militares no fim da comissão militar) que ainda não tinha partido com destino a Portugal.


Porta de armas da Compª CCS - Bat 3872 - Galomaro 1971


Saímos a porta de armas, atravessamos o pequeno largo de terra batida (podes ver na foto), e ainda decorria o cerimonial da alegria entre militares e jovens africanas. Dirigimos-nos ao Posto Avançado, uma vala no solo, talvez a 400-500 metros de distancia em direcção da Porta de Armas do Destacamento. Transportava-mos a G3, sendo que o Furriel (mecânico) tinha aplicada ao cano da metralhadora um Dilagrama (Granada de mão que podia ser lançada com disparo da arma).


Com uma caminhada relaxante, chegamos ao destino, saltamos para dentro do buraco, encetamos conversa amena, enquanto por vezes o olhar de cada um de nós ia ao limite da vegetação, entre pondo-se uma Bolanha (2).
Claro que o contador de histórias naquele semi-silêncio relativamente próximo das tabancas, era o Velhinho, deliciando os Piriquitos (recém chegados à Guiné) como eu, com um imaginário de histórias, dolorosas umas e melodramáticas outras, das quais ainda não tinha-mos tido experiência, provocando concerteza em nós silenciosos receios.. Tiveram os meus camaradas mais tarde a experiência vivida de histórias semelhantes.


Tinha passado uma hora ou pouco mais, e temos na semi-escuridão o desenrolar de uma cena intrigante.
Um grupo de vacas (ou de bois?) caminhavam em direcção à nossa direita, sem alguma variação de percurso, nem um pequeno desvio... sempre em fila.
Gado inteligente, para um Velhinho astuto. Percebi depois... Diante do desfile, este explica-nos em voz mais baixa do que até aqui nas suas histórias; que o comportamento dos animais, devia-se a que estavam a ser conduzidos por pessoas escondidas pelo volume do corpo dos bichos.
Só se colocava em dúvida se era população afecta, ou mesmo guerrilheiros do PAIGC (3).
Já quase a saírem do nosso raio de visão, que fazer, disparar ou não?. NÃO.
O maior e mais natural e justo desejo do Velhinho, era proteger-se nestes últimos dias da sua permanência no mato.
A expectativa dos Piriquitos recém chegados ao mato, contribuiu para aquela decisão do mais velho e mais experiente de nós naquela vala cavada no chão, e... sem rádio p/ comunicações.


Passados estes intensos minutos, a conversa voltou quase ao normal, descomprimida que estava a situação.
O assunto passou a ser características das armas, um dos tópicos foi o alcance dos Dilagramas e consequentemente a munição a utilizar para o seu disparo.
Como um tiro certeiro, o Velhinho pergunta ao Furriel mecânico, que ainda tinha o Dilagrama introduzido na ponta da G3, que tipo de munição tinha no carregador para disparar o mesmo se tivesse sido necessário.
Bala de G3!...responde o Furriel.
Naquela temperatura amena de principio de madrugada, todos devemos ter gelado.
O Velhinho, com uma calma indesmentível pede a ponta da arma ao Furriel. E sem delongas retira o Dilagrama da ponta do cano da metralhadora, tudo num silêncio indecifrável.
Retirado o engenho deu-se inicio a uma rajada de impropérios,; caralh.. fodx-se queria-nos matar a todos...? O que veio para aqui fazer ...? e continuou tra tra tra tra.... (4)
Não consegui ver a cara do Furriel de frente, mas sei que não pronunciou uma palavra em resposta.
Passado o tempo estabelecido, voltamos ao destacamento. Chegados, cada um foi para o seu abrigo, talvez cogitando... procurar comer ou beber algo e dormir um pouco sempre incomodado pelos mosquitos (5).


Eu nisto tudo ?.. Nada de especial, só pensei que a primeira situação de perigo que se me depara é com os meus camaradas passado duas semanas, e não com o inimigo. Merda para isto, o que virá a seguir ?!

Mas gostei de estar na companhia daqueles camaradas naquela noite tropical, dentro de um buraco rectangular a que dão o nome de Vala (que não nos foi necessária nem para sobreviver, nem para morrer) contando anedotas, não cumprindo as regras. E o Velhinho estava a ser-me muito útil para os meus sonhos e realidades. Não os esqueci, embora não me lembre dos seus nomes.

(1) antes da independência, era chamada Guiné-Portuguesa.
(2) zona de cultivo de arroz principalmente
(3) PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. Movimento de libertação que lutava contra o colonialismo português.
(4) O Dilagrama (granada) só pode ser disparada com munição de pólvora seca sem projéctil. Se tivesse tido o impulso de disparar, a granada explodiria mesmo na ponta da G3, matando-nos a todos que estava-mos muito juntos.
(5) O meu abrigo era o que vês ao centro da fotografia, noutra oportunidade explico-te de que eram construídos.

Obs. Foto capturada da Net. Fica aqui o meu agradecimento ao autor.

8 de outubro de 2011

GUINÉ-BISSAU, DESTINO DE UMA EVASÃO

Guilherme, nesta madrugada excepcionalmente quente de Outubro, estive à janela como tantas outras vezes, deixando voar os pensamentos onde estás muitas vezes presente.
Mas, desta vez não estiveste nem próximo, porque eles andaram sobre a Guiné Bissau de que já te falei.


Eu sou o da esqd.  À porta de uma Tabanca. Sempre que podia andava à civil.

Na minha varanda e de janelas abertas, chega-me o cheiro intenso de mato queimado nesta madrugada.

Sinto-me olhando o vazio, como orbitando a Guiné Bissau nesta noite sem luar.
Vejo as pequenas fogueiras e o burburinho das vozes sentadas à entrada de cada tabanca.

A minha busca de uma delas no meio do labirinto das mesmas, o cheiro da sua palha rendado com outros cheiros, produz-me ânsia e ligeiro desnorte.

Com as estrelas da noite como testemunha e como guias, com a ténue luz das pequenas fogueiras..., procuro no burburinho das palavras de cada família as silabas que me permitam a comunicação. "Corpo de vô ?" "Manga de sibe" "Jametum" etç.

Beber um trago de álcool de cana, fraternalmente oferecida, concerteza com raivas contidas, e que eu não me sentia o destinatário..

Sentia-me honrado, pela hospitalidade, no meio de pessoas com rostos quase esbatidos pela escuridão.

E por vezes sem conta, procurando dar melodia de esperança a curtíssimos diálogos nunca concluídos, sobre algo que estava para além de mim, outros berros de outras bocas mortíferas, se escutavam de vinte, trinta, quarenta quilómetros de distância.

Minha farda se transformava no pano de fundo de cena, e toda a empatia se desvanecia na plateia à porta da tabanca.

Nossas bocas fechavam-se e só os olhares dialogavam interrogando o culpado.

Contudo, a cada noite nascia o dia com a alegria sofredora das gentes no cultivo, na bolanha, nos afazeres da tabanca ou simplesmente embelezando ainda mais frondosas florestas.

E eu, eu frequentemente voltava a renascer na esperança de encontrar esse trilho, para o qual não tive tempo de o percorrer, para alcançar uma floresta de onde se partia novamente em direcção a um palco onde decorria a peça da luta pela liberdade e independência.

Gosto muito de ti, Guiné Bissau.


Carlos Filipe, Out. 2011

15 de setembro de 2011

CUIDADO COM A FOTO

Meu neto, esta foto foi obtida num comício da Oposição Democrática no Porto, ainda no período da ditadura fascista em Portugal, fins dos anos 60s.
Porque me achei "bonito" enviei para minha Mãe, que na época estava a trabalhar em Inglaterra.

Os "motivos vários" eram para proteger as outras pessoas presentes na foto da policia politica portuguesa PIDE, caso eu perdesse o controle da foto.

11 de setembro de 2011

" MG " UM SONHO DE JOVEM

Creio que este foi um dos meus maiores sonhos, quando em muito jovem gostava de ter um carro.
Na época, ficava com inveja quando via algum dos filhos de famílias ricas a conduzir um carro destes.
Sendo que a marca MG, ficou-me vincada na memória porque um tio meu, da facção mais privilegiada da minha família teve alguns, embora não desportivos. E um deles acompanhei a sua completa desmontagem e reconstrução, porque pretendia modificar algo no automóvel.

23 de maio de 2011

23 de MAIO, MEU DIA DE TODOS OS DIAS.

Já passam quatro anos, que decidiste sem outra alternativa, encetar uma viagem, para a qual não me convidaste.
Só me deixaste o filme da nossa amizade, amor e companheirismo, além do rebento da tua (nossa) filha. O Guilherme Filipe.
Todos os teus amigos(as) que eu conheci te admiravam. Tambem por isso foste o meu orgulho.

( Últimas palavras escritas, que a avó recebeu da enfermeira Dora )



-23 Maio de 2007-

6 de maio de 2011

VESTIGIO

Numa época em que ainda estávamos a aprender a viver como um casal, com tudo que isso implicava e eu pessoalmente a aprender a ser pai de uma menina com três anos.
Tudo era uma preocupação para mim o que fazer e de que maneira, porque estavas muito fragilizada, mas ao mesmo tempo com muita determinação de manteres as forças para seres capaz de conseguires cumprir as tuas obrigações de mãe e agora de companheira sem precisares de terceiros.
Digamos que tínhamos acabado de sair da adolescência com um rol de supresas em contacto com a realidade da vida, e aquele traço da tua personalidade causava-me admiração com um misto de vaidade e orgulho, por poder ser teu companheiro.
Na verdade, no meu fundo, não sei se também não me sentia protegido, porque de facto tinhas já uma experiência com os percalços da vida real




18 de abril de 2011

( III ) - SONHOS, VENTURAS E OUTROS QUE TAIS

Conforme os editais, apresento-me na unidade militar respectiva no Porto, para a Inspecção Militar.
Um amontoado de jovens dispersos pelos passeios, com semblantes de uma boa disposição, que em muitos casos era uma forma de disfarçar a ansiedade, o desconhecimento do que vinha, a aflição de deixar os empregos, o sustento dos filhos e/ou família em alguns casos.
Uns tantos, acompanhados de seus pais com ares de quem vai para o matadouro, outros porém com todo o estilo de filhos de "família bem", que pareciam dizer; venho trazer meu filho para os elevados desígnios da Pátria. Circulavam no meio destes jovens alguns adultos visivelmente alguns pais, e outros estranhos adultos aparentando jovialidade, mas demasiado velhos para a condição de Mancebos... tratava-se da policia política PIDE-DGS dispersa no meio dos presentes.
Aqueles jovens (maior parte) não sabiam que se tratava da policia política rondando. Felizmente para eles que as suas conversas eram circunstanciais (em amizades de ocasião) à volta das suas origens, empregos, destinos, namoradas, e pouco mais.
No interior da Unidade Militar, de forma mais ou menos organizada enfileiravam-se os Mancebos para a respectiva inspecção física, sendo a principal preocupação dos examinadores, se o jovem tinha sífilis ou era homossexual, durante um breve inquérito sobre o seu estado físico se era cocho ou maneta, mas não sobre o seu estado saúde.
Soldados já fardados, (os prontos) com seus "ares de sargentos" a imporem a disciplina, procuravam manter a integridade das filas em direcção às mesas estrategicamente colocadas, onde estavam médicos (ou alguns supostos) com semblantes quase impenetráveis, sem grandes conversas, como militares alemães que seleccionavam homens aptos ou não para os trabalhos forçados.
Coisa que não me impressionou, porque com dezasseis ou dezassete anos, fui convocado (acompanhado de minha mãe) para ser interrogado pela Policia de Investigação Militar, no Porto. Assunto; acompanhar frequentemente um africano de Angola que estava (ainda hoje estou para compreender com quem estava a tentar solidarizar-me, eu era jovem demais) "protegido" no centro de transmissões STM no Castelo da Foz. Este meu convívio com o africano que algumas vezes comeu em minha casa originou suspeitas. Também não sei se sobre mim ou o africano. Eu era conhecido dos militares e do Sargento do posto de transmissões, desde criança. Convivia com eles e aprendia coisas sobre radiocomunicações, andava à vontade pelo Castelo que servia de quartel, comia com os soldados etç. Isto daria outra história, talvez um dia.
Mas voltando à inspecção militar.
À saída das instalações de inspecção, os recentes futuros recrutas confraternizavam, nos cafés das redondezas e especulavam sobre os seus possíveis destinos para o inicio da recruta. Desconheciam que a "distribuição" dos homens pelas diversas unidades no território (tal como o destino a África) obedecia a um plano entre outros baseado no nível cultural, das características sociais das regiões de onde eram oriundos, até incluindo o clima de Norte ou Sul de Portugal. Os madeirenses e os açorianos foram o exemplo mais claro desta filosofia sócio-militar.
Contudo, continua a colocar-se a questão: para onde ir.


Foi também nestes momentos de descompressão, depois de vãs tentativas de exporem à inspecção algum impedimento para ser militar, que alguns tomaram sem retorno a decisão de fugir à tropa, emigrando a "salto". Sendo que a principal razão para além das questões políticas, era ser colocado em muitos casos em causa a sobrevivência da família, filhos, e todo o rol de questões que se apresentam a um homem quando é deslocado à força.


Por minha parte, senti que aquelas duas horas, talvez me tenham transformado em um "bicho subterrâneo", disposto a tudo, decididamente não tinha alternativas concretas e viáveis de imediato. A minha postura passaria a ser de "dócil" cidadão. Tratava-se agora de aguardar a convocatória para o inicio da recruta (re)organizar a minha vida e o meu ‘modus operandi’ face ao que já me tinha proposto; combater o fascismo no seu seio, e agora "carimbado" com o determinante e insuspeito "apto para todo o serviço militar”.

(fotos do período decisivo)

15 de abril de 2011

A MÁQUINA


É por estes anos que o teu trabalho de ministrar formação de informática se intensifica, estou sentado no mesmo "escritório" com vista para a rua, onde tantas horas passaste com a responsabilidade da preparação do teu trabalho para cada dia seguinte. Começavas a dar formação a quadros superiores de empresas e eu inadvertidamente queria provocar pausas no teu trabalho em serões pela noite dentro, e tu não mo permitias.
Se valeu a pena profissionalmente para ti ou para nós, hoje perante o fim da nossa caminhada, choro de alguma forma o tempo que te foi roubado.

A única alternativa, era brincar com o tipo de trabalho. Desculpa as vezes que fui importuno, só via o teu esforço e não os teu receios de enfrentar os touros.

14 de abril de 2011

NATAL IMPREVISIVEL

Trabalhava eu por turnos na Radio, e nessa noite a minha saída era às 02:00h da manhã, apanhava o último comboio às 02:30 e chegaria a casa às 03 horas.
Tu tinhas ido trabalhar, embora tivesses saído mais cedo. Foste buscar a menina ao colégio e deves ter começado a tratar dos preparativos para uma noite de Natal a três.
Ora o previsto era que próximo das duas começarias a cozinhar o bacalhau, batatas, couves, o habitual desta noite... A menina estaria a dormir e acordaria, conforme a sua vontade para confraternizar e abrir as suas prendas.
Respeitava-mos muito os horários da criança, mesmo abdicando de alguns prazeres para nós.
Não havia telemóveis neste tempo.
Algum frio da época e uma viagem de comboio com muito poucos passageiros algo "tristes", mas eu ansioso de chegar, porque sabia que ia ter como sempre uma maravilhosa companheira à minha espera para uma noite de carinho, como tantas outras mesmo quando não era natal; ia pensando nas cores dos embrulhos para haver uma distribuição equitativa com a nossa filha pequenina.
Abro a porta, e vens ao meu encontro com o ar mais triste deste mundo, afogada num desânimo que parecia que não teres força para estar em pé.
Mais tarde compreendi que este desânimo deveu-se ao facto de saberes que o Natal para mim era a festa do ano mais importante, não por eu ser ou não ser católico, mas porque tinha sido o meu ninho de sonhos em criança esperando pelas prendas que nunca vieram.
Céus... com uma quantidade suficiente de guloseimas, as frutas secas, bolo-rei, havia pão, marmelada, nozes, pinhões ou seja de tudo um bocadinho, nem que fosse só para desogar... porque havia-mos de ficar assim tristes?
O que aconteceu ?!... Estava combinado que próximo das duas começarias a cozinhar, para quando eu chegasse estar quase pronto. Mas fatalidade das fatalidades o Gás de garrafa acabou-se...
Se calhar tinha mesmo que ser assim, porque ficou a ser um Natal com "sabor" diferente e durante anos foi acontecimento de referência nas nossas conversas natalícias. Creio que consideravas que me ia sentir talvez muito afectado.
Então acordamos que tinham que ser quebrados todos os nossos rituais, senão a coisa não ficava bem.
Primeira decisão; vamos comer no chão.
Segunda como o bacalhau estava quase cozido (o gás podia durar mais um bocadinho..) vamos fazer esfiado com azeite e cebola. E o resto prossegue normalmente.
Claro que no meio disto a menina já tinha acordado, teve manifestações de espanto por ver comida no chão em cima da toalha que anteriormente tinha visto na mesa; e a situação ia ficando complicada porque a criança não se apercebia que não podia andar em linha recta, devido à falta de um "generoso" espaço porque estávamos num apartamento J.Pimenta.
Acesas as velas, nós aconchegando o estômago com o singular bacalhau, a criança "petiscando" as doçarias lá fomos criando a nossa noite de Natal, a mulherzinha recuperando do seu desgosto, culminando num rir de felicidade pela forma como as coisas decorriam.
Alegria que aumentou com a distribuição das prendas entre os três, que se prolongava sempre, porque havia necessidade de dar oportunidade aos afectos e à apreciação das coisas neste caso principalmente dos brinquedos.
Até que que a criança foi viajar nos seu sonhos e nós... nós fumamos mais alguns cigarros, mais um copo de qualquer coisa e mais um copo de sumo, talvez mais uns pinhões, o volume do som da  televisão muito baixinho. Concluímos que tudo tinha sido bom e diferente porque nos amava-mos.
E neste Natal, cada um de nós foi tudo o que o outro quisesse que fosse.
Até breve amor.

Ps. A menina é a tua mãe...Guilherme

 

12 de abril de 2011

CULTURA E PROTECÇÃO



Decorria a Feira do Livro, na Avª da Liberdade. Ainda estava sedento de ler e conhecer o que havia de novo que tivesse sido publicado durante a minha permanência na Guiné.
Fora das horas do trabalho na Rádio e como estava hospedado muito perto, numa pensão na Pçª dos Restauradores a feira era o meu local preferido.
Estava uma tarde bonita de sol, creio que era um sábado ou domingo, havia muita gente.
Gostava de ter outra tarde igual... livre da guerra, da opressão, com alegria, recém-independente economicamente, e o tipo de trabalho de que sempre gostei.
Tinha ainda os reflexos da Guiné com a minha estadia hospitalar. Mas nessa tarde no meio da minha busca de novos livros, todos os resquícios do passado, todas as ansiedades do meu inicio de vida como jovem homem se evaporavam.
Durante estes anos me interroguei algumas vezes, se foste tu ou a criança, que era a tua filha que "apelaram" a todo o amor que eu tinha para dar um dia a alguém.
Recordo quando na Feira do Livro, eu ia a descer a Avª no passeio interior do lado dos automóveis e o meu olhar capta de repente uma menina pequenina a caminhar muito ligeira, também pelo passeio abaixo. Observo-a e de repente no meu entender ela estava aproximar-se muito do limite do passeio e corri para ela para a deter. Olhei para os lados para ver quem estaria com a criança e tu estavas mesmo ali ao meu lado, mesmo juntinha a mim.
Creio que me senti acabrunhado. Afinal... havia alguém tão atento ou mais que eu. Porém não tinha reparado em ti, a Mãe estava presente.
Lembro-me de ter oferecido à menina algo da feira, que não me recordo.
Não sei exactamente do que conversamos (talvez da revolução e livros) e caminhamos juntos o resto do percurso com a Susaninha no nosso meio até aos Restauradores onde nos separamos. Tu foste para o comboio e eu para a Rua Capêlo, para a Radio.
Quem eras tu ?! Só fiquei sabendo que trabalhavas numa Editora, tinhas uma filha com três aninhos, residias na linha de Sintra, e deixaste-me a impressão seres de "esquerda" e... mais nada.
Por minha vez não te terei dado muitos elementos, pela "complexidade" do meu percurso de vida, que afinal era tão complexo como a teu, não o sabendo nós nesta altura. Ficaste com o essencial de mim, não te disse muita coisa, quanto mais não fosse porque olhava para ti e eras uma jovem bonita que me dava o impulso de atrair a tua atenção, mas ao mesmo tempo olhava para a Susaninha e já te via como uma mulher mais madura com outras responsabilidades.
Foste, o MEU ENCONTRO COM O AMOR que me acompanhou sempre em todos os momentos bons e maus.
Quando eu estava a começar a "estrada da vida" como adulto, inspiraste-me respeito mesmo na tua simpatia, digamos que este casual encontro contigo me provocou receio de tentar sequer namoriscar além de não deixar de pensar na menina e em ti como uma só pessoa.
Ficou combinado nas despedidas que me contactarias. Sabias o meu nome e o número da rádio, era fácil.
Até breve meu amor.

11 de abril de 2011

( II ) - SONHOS, VENTURAS E OUTROS QUE TAIS

Vinte anos de idade (1970), aproximam-se os dias da decisão que terei de tomar. Ou seja os dias da Inspecção Militar.
Vou reforçando a minha própria segurança, destruindo ou facultando a outros, material em minha posse, como documentos, recortes, livros, mais comprometedores.
Deixo os lugares mais recatados e começo episodicamente a conviver mais "brejeiramente".
Procuro conhecer as de-marches da realização de uma inspecção militar, sobre a ida para um quartel.
Fico a conhecer mais detalhadamente, casos de vários estudantes universitários obrigados a interromperem os estudos para ingressar nos contingentes para as colónias, o que me desperta o desejo de estar junto a eles. Mas tratava-se de um imaginário meu, não sabia como.


Começam as conversas com algum grau de risco, com os amigos mais íntimos, no fundo procurava o suporte à decisão, (que não foi a final), que eu naquele momento desejava tomar.
A deserção. Para além das opções políticas, outros factores se me apresentam e influenciam.
O afastamento das pessoas que eu mais amava na vida, minha Avó e minha Mãe. Sendo verdade, que na altura e recentemente, minha Mãe tinha-me dado a conhecer o carácter colonialista e escravizador daquele que foi meu pai, durante muitos anos em Moçambique na ex-Lourenço Marques, pai que não cheguei a conhecer e sendo a causa da separação do casal.
Com a deserção implicava consequentemente o apelo à minha coragem com destino ao desconhecido e em absoluto ainda insensorial.
Renovam-se conversas com amigos íntimos e mais "seguros" (um não implica o outro tipo de personalidade) que ganham novos contornos e outras abordagens. Diversas novas condições e objectivos se me apresentam entretanto com a consciência política adquirida até aquele momento, durante a juventude, em substituição do futebol e da abstracção política e social que a maioria dos jovens padeciam, face ao fascismo existente, mas que lentamente a juventude começava a despertar da letargia.
As alternativas naquele momento eram:
Deserção pura e simples.
Ou frequência da recruta e depois desertar, com o objectivo de adquirir instrução e conhecimentos militares, com vista a vir a integrar grupos de acção revolucionária.
E ainda, enquanto não embarcasse, obter informações, produzir agitação política, nos quartéis.
A minha opção final e pessoal (mais uma vez neste campo) foi que ingressaria as fileiras e embarcaria para as colónias, se mobilizado, onde levaria à prática o que me fosse possível.
Tendo-me atribuído, independentemente dos riscos que acarretava e como primeiro empenho, dar a conhecer para o exterior todos os factos e movimentos de relevo do interior dos quartéis, incluindo cópias ou transcrições e na medida do possível outros materiais. Que veio a ser inicialmente em RI7 na cidade de Leiria, unidade onde fiz a recruta.
E no caso de embarcar para as colónias (que veio a ser para a Guiné), procurar contactos com a população afecta aos movimentos de libertação e dar a conhecer as lutas que se travavam em Portugal contra a guerra colonial e a ditadura. Facultar o conhecimento sobre o exército colonial, e informando para Portugal do que tinha conhecimento no aspecto político-militar e outros.
Não obstante todos os medos, todas as angustias, creio ter concretizado grande parte dos objectivos a que me tinha proposto. Concluo eu hoje, até ao meu último dia de hospital militar.
p.s. Nunca utilizei nenhuma informação de operacionalidade pontual, que pusesse em perigo qualquer militar, fosse ele quem fosse.

(continua)